Terça-feira, 31 de Julho de 2012

Não é ser cusca, as paredes é que são finas como papel e as pessoas não controlam o volume do seu décibel

Não percebo a cena de estar junto com alguém se é para passar pelo menos metade do tempo na alegre discussão. Mais que o sempre necessário responso por não conseguir encontrar o tacho X285, ter arrumado a colher no compartimento dos garfos, ou enfiado a lata de redbull no recipiente verde (suspiros) é, as mais das vezes, pura perda de tempo. E, ainda assim, desatar numa gritaria insana, é perda de adrenalina que pode fazer falta noutras ocasiões. Tipo, dicussões sobre o governo. Para quê espumar da boca e arranhar a garganta se uma piada sarcástica que envolva o macaco Gervásio* pode arrumar o assunto? Acredito seriamente no efeito terapêutico do sarcasmo numa relação, a piada certa na altura certa, o sentido de humor em saber encaixar, mas concedo que não é para todos. Não, a sério: se um casal perde mais do que 5% do tempo que passa junto em histérica gritaria, devia era fazer a trouxinha e ir cada um à sua vida. Que desassossego, pá, que aflição.

(aposto que já ninguém se lembra do Gervásio, mas era um chimpanzé que sabia separar os recicláveis. ao contrário de certas e determinadas pessoas que, suspiros, não sendo daltónicas, não têm qualquer desculpa.)

Segunda-feira, 30 de Julho de 2012

Composição: as minhas férias

Na verdade, e como sou uma neo-porca-fáchista de uma trabalhadora do Estado, as minhas férias ainda não terminaram. Até agora foram queimados 14 dias, ainda há mais 13 (25, mais 1 de antiguidade dez anos de purgatório + 1 de ser quarentona). Gostáveis? De duas uma, ou reivindicais ou concorreis. Ou então tirais cartão de partido na altura própria e tratais de vos tornar uma agenda com pernas absolutamente indispensável, que aí, além dos 25 dias de férias, ainda ficam com uma carradona de benesses que não são distribuídas aos mortais.

Não vou fazer aqui um relato exaustivo sobre as minhas férias, pronto. Não interessa a ninguém a que horas acordei (resumidamente, quando me apeteceu), o que comi (mais do que devia), quantos rabos femininos bem bons avistei na praia (nenhum, eu só tomo nota se na zona onde abanco há fulanas mais gordas que eu, coisas da auto-estima e da ciência comparativa), se havia muitos gajos bons que me mate soubesse que eram gajos bons (népia: prefiro agarrar um bom exemplo de barrigão e ameaçá-lo que se um dia fica assim o largo por um personáu trêiner chamado Kléber) e essas tretas.

O que interessa é isto, e eu sei que mentalmente a leitora se pergunta Izzie, filha, aproveitasteS os saldos? FizesteS muitas compras? E a nova colecção, já visteS? E gostasteS? E claro que eu respondo, solícita. Sim, fui aos saldos! Comprei um pijama. Só. Porque soutiens giros e no meu número, em saldo, já não havia. Cada um sabe o que lhe faz falta, e eu cá estou a contribuir para a economia nacional a pagar trabalho a empreiteiros tugas e, vejam lá, até me vão facturar parte do trabalho, um bocado contra a minha vontade, temos pena, mas 23% já é highway robbery, sem contar com o aumento de tudo, o IRS, o canequinho, e os subsídios que inconstitucionalmente me gamarão mas não faz mal porque constitucionalmente é a crise.

Quanto à nova season não faço puto de ideia, mas posso dizer que os pomares estão carregadinhos de pera rocha (iam), que esta ainda está verde (ooohhhhh), mas lá para os fins de Agosto vou comprar sacadas, sacadas, méne, que se me calharem como as do ano passado, méne, aquele povo não as deixa chegar às grandes superfícies lisboetas. De resto, travei conhecimento com uma loja muito, muito gira, onde comprei algo que há muito estava na minha uicheliste: um comedouro para p'sarinhos! Yay! E a 5 parrecos, uma pinchincha. Correi portanto à Agriloja e perdei a cabeça, pequenitas, e não digam que vão daqui. Aqui há atrasado na compra de 15 pintos ofereciam 5 quilos de ração, olhem que givauéis destes não encontram na blogosfera, e ovinhos frescos e bons que 15 galinhas dão, hein, e nestes tempos de crise, hum, pensem nisso.

Pequeno léxico trolha

Batume. Batume. Batume.
Repitam muitas vezes, deixem a palavra enrolar-se no céu da boca: batume.

Estou a pontos de esquecer uma longa história de amor com o vestoria pelo batume.

Domingo, 29 de Julho de 2012

Estamos muito ligeiramente lixados

Um dia hei-de ser suficientemente rica para fazer obras em casa nos seguintes moldes, a saber: entregar a chave aos senhores, ir um mês para uma praia paradisíaca no mediterrâneo, e só voltar depois de tudo feito e empresa de limpeza ter dado uma escovadela geral à casa.
Enquanto isso não acontece, amanhã às oito tenho cá gente a por um tecto falso novo no corredor, tenho a mobília da sala toda empilhada e coberta por um plástico, o chão a pedir aspirador, pano e de novo aspirador, uma divisão com tralha móvel até à porta, e até um quarto ligeiramente atafulhado. Já apanhei uma crise de nervos ao ver o que escondia o antigo tecto falso, a gatinha está a ter uma crise de nervos porque não reconhece a casa e deve haver aqui mais cheiros que os que estão autorizados a frequentá-la, o home já me arrancou a promessa de não haver mais obras em, pelo menos, três anos, e nem na varanda tenho refúgio, que é o estaleiro dos pintores, e em jeito de cereja no topo do bolo, houve um gatito que achou engraçado andar a passear sobre cenas com tintas e depois deixar a sua impressão patal nas cadeiras e mesa de madeira que eu tinha limpo e oleado antes das férias.
Adoro a minha vida, e já só peço que me acabem isto esta semana, que óspois não tenho vagar para limpezas.
E amanhã jogo no eurocoiso, chiça.

Sexta-feira, 20 de Julho de 2012

Don't mind me, estou só de passagem

E nem era eu se não viesse aqui largar umas larachas:

- Ontem Lisboa cheirava a chamusco. Já chegámos à Madeira?

- Não querendo ofender expats em latitudes manifestamente merdosas, isto de termos primavera em Julho não está com nada, e ontem, lá no litoral onde veraneio, estava frio para ir para a praia, frio; a culpa também é do Relvas?

- Por falar em Lawns, o pessoal já se esqueceu da cena daas secretas e do Público, não já? Só para confirmar que esta é só a terceira do tipinho.

- E estado do país, hein? Ainda andamos a discutir que o pessoal do público é só regabofe e no privado é que se paga a crise, ou já fizemos um reboot à inteligência e percebemos que o pruguelema (iep, falo cavaquês) se calhar são os salários altíssimos de meia dúzia que muito pouco fazem?

- Por falar em meia dúzia de caralhetes, já alguém fez o paralelo entre as resmas de audis, bmw e quasqais brancos que se vêem por aí e a crise? Se alguém quiser, explico como os vossos patrõezinhos nos privados conseguem adquirir essas maquinetas a um quarto (ou menos) do custo, imputando o resto nas contas da empresa; vós, os mal pagos, sois roubadinhos, que são, mas se calhar não por quem pensam.

- E agora a minha vida, que é o mais importante de tudo: apanhei uma malvada de uma alergia ao sacana do protector solar anti-alérgico não testado em animais que comprei este ano. Piretes à Piz Buin, olá de novo à Avene, que me ando a coçar como uma tinhosa e estou vermelhusca como uma camponesa soviética.

- Se já por muitas vacanças comprovei que é possível passar o tempo todo de chinela, techérte branca, e calção de  ganga (mas decente, não daqueles cu de fora e bolso a aparecer), não sei porque encho uma mala de roupa. Para além das techértes e interiores, não valia a pena.

- As finanças fizeram o favor de me reavaliar a casita (para mais do dobro!) e mo avisar durante as férias. Parece que tenho 30 dias para reclamar ou pedir nova avaliação; considerando que a nova avaliação é paga, que teria que passar umas horitas jeitosas a estudar legislação para saber se aquela está bem feita, caguei. Graças às graças a casa tem mais de sete décadas, o prédio não tem elevador, e acho (acho, teria que ir às finanças e conservatória consultar uns papéis) que me fizeram uma área útil mais piquena que a real; ficamos assim. Notinha à parte: sim, o meu IMI vai mais que dobrar, mas ele ainda assim era baixote. Pessoal que tem casa mais recente: ides trabalhar uns dois meses por ano para pagar o próximo, aviso amigo.

- Ficaide na paz de Pasitos Conejo e Mick Lawns, que ainda hoje volto para o litoral ventoso que me acolhe as férias. Uma mensagem de esperança: uma semana de papo para o ar faz maravilhas pelas células cinzentas, parece que não foi desta que me faleceram de vez.

Sábado, 14 de Julho de 2012

Não sei, ouvi dizer

Que hoje pelo princípio da tarde, podendo a hora variar consoante o que se entenda por início da tarde, mas às duas o mais tardar, duas almas farroupinhas vão arrastar as suas tristes e acabadas carcaças até a um qualquer ponto do litoral não algarvio, onde permanecerão por duas semaninhas, com complexos e elaborados planos de passar a maior parte do dia na horizontal, seja na caminha, prainha, ou sofazinho. Pretende ainda o elemento feminino desse lamentável par, nesse curto, curtíssimo período de tempo, readquirir as suas já magras aptidões sociais, reaprendendo a ouvir e conseguir reter o que as demais pessoas lhes dizem em conversas sérias, seríssimas, sem desligar a conversa a meio e começar a passar um desenho animado na sua mente, bufar de tédio, ou revirar os olhos enquanto esboça um trejeito cómico. Seria também agradável poder utilizar a sua mão direita maioritariamente para passar páginas de livros, aliviando assim as dorzinhas desagradáveis que esse pulso, sustentáculo de mão teclante, já vem anunciando há coisa de um mês. Faz ainda parte dos planos de ambos desfrutar o mais possível, se bem que não exageradamente, do comércio local que tem ofertas tão tentadoras como a bela, bela pizza em forno de lenha, ou o geladinho italiano que arruma o santini num canto. A sério, o santini é muito sobrevalorizado, e quem não vende um gelado de chocolate que me mereça a aprovação, fica chumbado o resto da eternidade (augadinho, augadinho, credo).
Desta vez não há computas e nétes, e muito menos possuímos aifónes ou blequebérris, pelo que é mesmo adeuzinho e até ao regresso, com esperança que o cheiro a queimado que se liberta do cocuruto das suas cebecitas já tenha entretanto dissipado. Felicidades para o país, beijinhos e abraços ao povo, não estamos para nada, amanhem-se sem a gente.


Quinta-feira, 12 de Julho de 2012

Quase sete anos disto

Enquanto ponho a base o betume na cara para atenuar este meu ar matinal de prédio em derrocada, o home passa e sai-se, do nada, com um andam a dizer coisas, mas o Relvas é um senhor, um senhor, e eu tenho p'ra mim que um Doutor não é capaz de fazer mal a um cidadão.
Isto tudo, antes das sete e meia da manhã.

[e, já no carro, enquanto a Star FM passa o I don't know how to love him, manifesta que acha que não, que JC não era de certezinha amante/marido de Maria Madalena, que cheira-lhe que o tipo era mais bros before hoes. Isto tudo, antes das oito da manhã.]

Quarta-feira, 11 de Julho de 2012

A minha religião

Consiste no culto últim'horismo; e mais uma vez meu santo profeta (Coelhinho da Alice) me salvou. Salvé, salvé.

(tenho de deixar de ser assim. depois das férias.)

Se calhar já começava a panicar

Entro de férias no sábado e ainda não consegui entrar em contacto com a esteticista para marcar depilação.


Si non è vero, è ben trovato

O que me ri com isto.

Segunda-feira, 9 de Julho de 2012

A dica da semana com titi Izzie

Inaugurando uma nova coluna aqui na tasquinha, preenchendo um vazio há muito sentido, titi Izzie, essa beifeitora da humanidade, chega-se à frente para, com seus sábios e modestos conselhos, estender a mão a quem dela precisa. Limpaide as lágrimas de comoção: é verdade que titi Izzie é pessoa generosa, de bondoso e espaçoso coração, mas fá-lo também por pirraça, fartinha de ver por essa blogosfera fora tanta rubrica de auto-ajuda ou conselho sentimental e nunca se ter lembrado de fazer o mesmo, quando é pessoa mui mais habilitada para tal.

A primeira cartinha a que titi Izzie responde chegou-lhe à mão nos seguintes moldes:

"Olá titi Izzie! Sou sua fã há coisa de horas, e venho por este meio pedir-lhe ajuda para desassossego que me vem afligindo há coisa de um ou dois dias! Sou uma rapariga do campo radicada nesta urbe, que gosta de dedicar-se à cozinha e berbequinagem. Ora apesar de ser uma rapariga de esquerda e sensível às dores do proletariado, e uma dona de casa dotada de todos os predicados necessários, não consigo fazer face a um cataclismo que me assolou, e que consiste numa ocupação PREC'iana e desregrada de minha acolhedora e produtiva cozinha por um bando de okupas formiguistas, que mal chegaram e logo se serviram das iguarias que destinava a melhor boca. Que fazer???? Como me livrar deste ordálio???? Me ajude, titi Izzie, que estou a pontos de cometer o suicídio!!!!!"

Esta querida leitora, que não vamos identificar porque titi Izzie respeita a privacidade alheia, mas quem chamaremos, por facilidade, Rita Maria, deparou-se com uma situação que titi Izzie já teve de enfrentar, e para cuja resolução está pronta a fornecer uma dica vencedora!
Querida Rita Maria, experimente dirigir-se a uma superfície comercial e adquirir o seguinte produto, ou outro semelhante:

Trata-se de uma arma de destruição maciça desse bichinho encantador no jardim alheio mas tão desagradável em cozinha própria. Tira-se as quatro palhetas, e as adoráveis mas intrusivas formiguitas abastecem-se do suculento todavia mortífero manjar que está lá dentro, levam-no para a toquinha onde o partilharão com as amiguitas num banquete revolucionário e, literalmente, idem morrer longe.
Este dispositivo, de cuja existência tomei conhecimento através de perigosa traficante de armas para pragas domésticas e blogger cuja identidade guardarei até à cova, tem-se mostrado muito eficaz no controlo da peste formigueira no lar Izziano, e assim merece ser partilhada por esta blogosfera fora, num acto de simpatia que me é tão peculiar.
De nada, de nada, querida amiga, e dê notícias!

Domingo, 8 de Julho de 2012

Sobre livros

Como sou amiga, e não consigo guardar um segredo, partilho que vi o Redbreast e o Nemesis do Jo Nesbo já à venda traduzidinhos em português. É um ganda escritor policial, e não digam que vão daqui.

Falando em policial, também já há (pelo menos um) Ian Rankin traduzido. Como o tipo escreve em inglês, é contra os meus princípios comprar na língua de Camões, pelo que vai continuar na minha wishlist da amazon. Diz que é um ganda escritor de policiais, mas não sei porque ainda não provei.

Continuando no policial, Camilla Lackberg também já está traduzida. Comigo, vai ter mais uma chance, mas se a meio do livro eu já tiver adivinhado quem é o assassino e respectivo motivo, como me aconteceu no The Preacher, vai para a gaveta do esquecimento. Eu quero é que me surpreendam, pá.

Li o Freedom do Franzen e acho que não gostei. O tipo escreve bem, que escreve, principalmente diálogos. Mas não consegui qualquer empatia com qualquer das personagens. Para ser completamente verdadeira, não gostei de nenhuma das personagens. Se aquelas pessoas se cruzassem comigo na vida dos dias reais, acho que me estava marimbando de alto para saber mais sobre elas, ou me ralar com o que pensavam, ou o que lhes acontecia. Pronto, é isto. Pelos vistos não gostei. Tanto hype, e eu ali agarradinha a ver se o gajo me dava com uma frigideira na cabeça, me fazia uma zoeira na mioleira e me mudava as ideias, e nada. Acabou e enterrei as pesonagens, don't give a flying f**k sobre o que farão ou não a seguir. O Franzen usa óculos de massa, pela foto que se vê na minha edição. E tem um ar de quem se preocupa com o sentido da vida no quotidiano das pessoas e assim. Isso talvez explique alguma coisa, mas hoje não me apetece nem generalizar injustamente nem insultar qualquer grupo de indivíduos.

Estou a ler um livro que é tão, mas tão fixe, cool, bom, interessante, excitante que nem caibo em mim e pulo de alegria. Ao mesmo tempo, dou-me estalos por só agora o estar a ler: "Eu, Cláudio", de Robert Graves. Como sou uma indivídua um bocadinho pedante, só pego em romances históricos escritos por gente que saiba mesmo, comprovadamente, do que fala. Ora o Graves é um mister na cultura clássica, e ainda por cima escreve bem e de forma a agarrar o leitor. Ganda novela que aquilo é, já sei por onde o Relvas estudou ciência política. Ou então ficou-se só pela série Roma (que é bem boa, atenção), e daí a notinha baixa.

Sábado, 7 de Julho de 2012

Hoje já choveu e tudo

E eu sei porque acordei ceducho, e tica-tica, a pé por essa cidade em busca do comércio tradicional de ferragens. Verdade, entrei em modo bricoleiro total, pré-obras, o que lhe quiserem chamar.
Agora o dilema, o horror da escolha, sendo que os exemplares já vão em três, é um trilema, portanto, mas o terceiro não tem direito a boneco:

Mas é um crossover entre um modelo e outro, só dois parafusos à vista no espelho, e maçaneta achatada como a de baixo.
Já agora, um valente e sentido pirete para o comércio tradicional: aquilo que no Leroy custa 16,25 o par fica a mais de 20 em qualquer simpática loja de bairro. Já nem falando das minhas all time faves, que num sítio estavam a 47 o par e mais longe do rio a 37. Vão gozar com as respectivas mãezinhas, sim? E entendam-se. Que quando tiver a necessária soltura de carteira para gastar 500 pastéis nas lindas maçanetas tradicionais de porcelana talvez a gente fale.
Pausa agora para um cigarrinho, e ala ao hiper e ao aki, para mais maçanetas. E caixotes de cartão. E mais um rolo de plástico de bolhinhas. Se esvaziar uma sala e corredor já dá tanta trabalheira, juro que nunca mais mudo de casa.

Sexta-feira, 6 de Julho de 2012

Se a mania pagasse imposto não estávamos neste atoleiro

Do que tenho, sei que devo muito à sorte. Embora não seja fácil estar a apontar exactamente que momento sortudo foi aquele que mudou uma trajectória, a verdade é que, às tantas, se tivesse sido atropelada ou apanhado uma constipação no dia tantos do tal tudo poderia ser muito diferente. Posto isto, também contribuo - ou tento - para que a sortinha não acabe. Se tenho dinheiro no banco, se vou fazer umas obras em casa e pagá-las a pronto, não esqueço a sorte que me trouxe a possibilidade de o fazer. Mas, caneco, também me lembro, e bem, do tempo que passei a trabalhar para ter a guita que agora vai possibilitar a cara (semi)lavada ao lar-doce-lar. Não esqueço ainda que, mesmo podendo, não me portei como uma Maria Maluca, gastando o ordenado até ao último tusto nas coisinhas giras que me apetecessem (e já não teria onde arrumar). Não tenho malas lubitão, nem carolina ferreira. O cinto que hoje me segura as calças, nem sei sequer se tem marca - era giro, servia, o preço adequado. Não há lá em casa sapatos jimixu, nem lubutã, e muitos menos chenéle. Sei que existem, já os vi à venda em Londra, Pari e Niuiorque - em muitas lojas, by the way -; vi os preços e ri muito, que sou indivídua cusca e galhofeira. E retornei-os à prateleira. Coisas de uma rapariga suburbana e tosca, mas um chão arranjado, uma camada de tinta, fazem mais pela minha felicidade que uma marca a pisar caca de cão na calçada lisboeta. E livros. Muitos. E viagens, para ver tuuuudo, também para nos tempos mortos entrar nas lojas e alegrar as vistinhas, mas, principalmente, ver o que há e que pessoas há (aconselho vivamente as secções de lingerie de qualquer grande armazém londrino, onde mulheres tapadas por panos pretos de cima a baixo enfeiram nas rendinhas e fio dental que nem gente grande). Coisas minhas.

Para minha sorte e azar do défice, calhou trabalhar para um patrãozinho chamado Estado. Alegrai-vos, portanto: sois meus patrões, vós que ledes. Até eu sou, ainda que muito parcialmente, a minha patroa. Nunca serei uma empreendedora, ó desgosto. Não tenho apelo nem jeito. Por isso reclamo daquilo que me tiram, uns subsídios que até integram o meu rendimento (do trabalho! o ultraje!) que, anualmente, é tributado. Não reclamo da falta de apoios do Estado, portanto. O malvado poder público, que não faz nada pela iniciativa privada - sendo que aqui a palavra chave é privada. Não reclamo pagar IRS porque é o meu dever, por muito que me doa cada vez ser mais. E, não sendo empreendedora, não reclamo pagar IVA, que por acaso até é dinheiro do freguês, do qual o tal empreendedor é mero depositário, uma espécie de intermediário que o cobra ao consumidor final e entrega ao Estado. Se é muito, pois é; mas quem o paga é consumidor. Se desincentiva o consumo, isso é que é chato, mas recebê-lo e entregá-lo ao Estado é sinal que se vendeu.

Mas se calhar é birra minha, e estou a ver tudo mal. É que, vejam lá, achava e acho que ser empreendedor, ajudando este país a andar para a frente, não se fazia indo comprar surrobeco made in China a feiras de trapos mal amanhados lá fora, e vender cá o poliéster por preços que igualam o grama de ouro. Julgava eu, e julgo, que fazer andar o país para a frente tinha que ver com apostar na produção nacional, a tal que dá emprego a quem cá trabalha, e cá paga segurança social e IRS, e assim contribuir para aumentar a riqueza de todos. Mas, como disse, sou uma rapariga, simples e não do campo, mas suburbana. Ainda por cima estado-dependente para trabalhar e comer. E decerto não percebo nada disto.

[no dia em que tivermos polícias a trabalhar em outsorcing a gente conversa: já faltou mais]

Atirar bosta à ventoinha

Publicado o acórdão do Tribunal Constitucional sobre o corte de subsídios, sabida a reacção do governo ao mesmo e respectiva declaração de insconstitucionalidade (que só vai ter efeitos práticos em 2013), vai uma apostinha que este povo bão e sereno se vai engalfinhar em estéreis discussões sobre malvados que trabalham no público vs gente boa e esforçada que trabalha no privado, em vez de se concentrar a debater o facto de o défice ter aumentado para além das metas fixadas, pior, para além do número verificado o ano passado; que este plano de redução de despesa não funciona nem funcionará; e que se calhar é responsável por a classe média estar a asfixiar, o que teve como consequência as receitas de impostos indirectos diminuírem, aumentado as despesas com subsídios sociais como o de desemprego, e que o futuro se adivinha a descer, a descer, a descer. Vamos então todos discutir que mais vale serem os calões dos FP a ficar sem subsídios, dois dias depois de nos termos indignado por o Estado andar a contar com serviços de enfermeiros a preço de saldo, contratados a empresas de trabalho temporário que os outsorcizam ao Estado e ficam com uma fatia de mais de metade do preço hora do trabalho destes profissionais, tudo para que o Estado corte na despesa, não suportando os normais encargos com estes profissionais de saúde que deviam estar no quadro. Faz-me lembrar aqueles hillbillies americanos que se manifestavam contra o Obamacare, gritavam ser contra um sistema de saúde público e finalizavam com um revoltado berro de "não me tirem o medicare". Grau zero: cá vamos nós. Há gente que parece que desistiu de pensar.

Quinta-feira, 5 de Julho de 2012

Note to self



Quando não estiveres no teu melhor, cala-te, esconde-te, recolhe-te, protege-te. Por milhares de momentos bons que possas ter tido, recordar-te-ão sempre por aquele pior.

Quarta-feira, 4 de Julho de 2012

Tuitadela do dia, que não tenho tempo para elaborar

As pessoas que atribuem todo o seu sucesso ao mérito próprio, é porque esqueceram os azares por que já passaram.
(a vida relembra, no problem)

Devo ter sido colocada na assistência ao palerma e não dei conta

Há poucas coisas (por acaso há muitas, mas adiante) mais deprimentes que assistir ao bonito espectáculo de um profissional qualificado, que até ganha bem mais que eu, a não perceber nadinha do que está a fazer, e a tentar passar a imagem que está controlar a cena de forma mui hábil e competente.
Más notícias: é o mês em que me faleceu o subsídio de férias, tenho os fusíveis todos mais que queimadinhos, ainda falta semana e meia de inferno até ao paraíso do descanso, e não há abébias para ninguém.

Terça-feira, 3 de Julho de 2012

Nem sei que título dar a isto

Em primeiro lugar, e para que as pessoas que vão desistir de ler o post até ao fim (eu sei que as há), deixo já a mensagem de início. Dois links, uma criança e uma família a precisar de ajuda, e quem puder dar uma mãozinha, decerto será muito apreciada.
Siga o link, então: aqui e aqui, e a Bia poderá ter um futuro mais risonho.

Agora o resto. Pensei um bom bocado antes de deixar aqui estes links, e este pedido de auxílio. Não porque duvide do mérito da acção, nem pensar. Já tinha lido no Quadripolaridades a história e, apesar de me assumir como cabra insensível, é claro que me tocou. Depois a Ursa mailou e pediu. E porque hesitei eu em divulgar? Ora, porque tenho vergonha na cara. Porque me pareceu hipócrita estar aqui a apelar a que se inscrevam como dadores de medula quando eu não o vou fazer.

(e aqui debanda 99% dos leitores, enojadinhos, tudo bem, têm esse direito)

E porque não me inscrevo eu como doadora de medula, ó cabra, vê lá se te custa muito, hádes precisar, vais a ver, o karma é lixado.

Na boa, venha o karma. Assumo, e creiam-me que custa. Não sou capaz. Nem é porque nunca poderei ser doadora de sangue (por razões que não têm nada a ver com o que segue), nem de órgãos (fumadora, e nem as córneas se safam, estão como hão-de ir), nem por suspeitar que tenho uma cena que me impede (há vinte anos foi-me diagnosticado um desvio de disco que muito, muito provavelmente já é mais que isso, mas ainda não tive ensejo de confirmar). Acho que a maioria lhe chamaria miufa, cagufa, mas é mais que isso. É uma fobia fortíssima a agulhas. Para fazer análises é um castigo, e só o faço sob coacção. Sou, desde sempre, a anedota da família. Desmaio sempre que me tiram sangue, tenho de o fazer deitada (e ainda assim já desmaiei na horizontal). E isto para encher meia seringa, é uma semana em pânico, a hiperventilar, no dia lá vou muito a custo, e depois é o que eu cá sei. Só a título informativo, consegui furar as orelhas depois de recrutar uma tropa de amigas para me acompanhar, e impedir de fugir. True story. E ainda as tentei convencer que afinal tinha mudado de ideias. Acompanhei me mate a uma das suas sessões de tatuagem e, mal o fulano ligou a máquina e ouvi o bzzzz de agulhas, tive um desmaio. Isto tem origem numa situação por que passei ainda muito miúda, mas que recordo ao mais pequeno pormenor. Não interessa: ficou para sempre. O meu irmão está inscrito há anos, uma década, talvez; mandou-me os papéis, li tudo, informei-me na net e paralisei. Não consigo, lamento. Talvez um dia consiga ultrapassar isto, talvez um dia o universo me castigue com a necessidade de fazer hemodiálise ou quimio e aí, concretizado o meu maior pesadelo de me transformarem em almofada de agulhas, passador humano, podem todos os que desprezam esta fraqueza sentir-se vingados. Mas se acham que é uma coisa desprezível, que sou uma egoísta sem nome, uma fideputa sem redenção, tudo bem, estão no vosso direito. Adeus e até um dia.