Do que tenho, sei que devo muito à sorte. Embora não seja fácil estar a apontar exactamente que momento sortudo foi aquele que mudou uma trajectória, a verdade é que, às tantas, se tivesse sido atropelada ou apanhado uma constipação no dia tantos do tal tudo poderia ser muito diferente. Posto isto, também contribuo - ou tento - para que a sortinha não acabe. Se tenho dinheiro no banco, se vou fazer umas obras em casa e pagá-las a pronto, não esqueço a sorte que me trouxe a possibilidade de o fazer. Mas, caneco, também me lembro, e bem, do tempo que passei a trabalhar para ter a guita que agora vai possibilitar a cara (semi)lavada ao lar-doce-lar. Não esqueço ainda que, mesmo podendo, não me portei como uma Maria Maluca, gastando o ordenado até ao último tusto nas coisinhas giras que me apetecessem (e já não teria onde arrumar). Não tenho malas lubitão, nem carolina ferreira. O cinto que hoje me segura as calças, nem sei sequer se tem marca - era giro, servia, o preço adequado. Não há lá em casa sapatos jimixu, nem lubutã, e muitos menos chenéle. Sei que existem, já os vi à venda em Londra, Pari e Niuiorque - em muitas lojas, by the way -; vi os preços e ri muito, que sou indivídua cusca e galhofeira. E retornei-os à prateleira. Coisas de uma rapariga suburbana e tosca, mas um chão arranjado, uma camada de tinta, fazem mais pela minha felicidade que uma marca a pisar caca de cão na calçada lisboeta. E livros. Muitos. E viagens, para ver tuuuudo, também para nos tempos mortos entrar nas lojas e alegrar as vistinhas, mas, principalmente, ver o que há e que pessoas há (aconselho vivamente as secções de lingerie de qualquer grande armazém londrino, onde mulheres tapadas por panos pretos de cima a baixo enfeiram nas rendinhas e fio dental que nem gente grande). Coisas minhas.
Para minha sorte e azar do défice, calhou trabalhar para um patrãozinho chamado Estado. Alegrai-vos, portanto: sois meus patrões, vós que ledes. Até eu sou, ainda que muito parcialmente, a minha patroa. Nunca serei uma empreendedora, ó desgosto. Não tenho apelo nem jeito. Por isso reclamo daquilo que me tiram, uns subsídios que até integram o meu rendimento (do trabalho! o ultraje!) que, anualmente, é tributado. Não reclamo da falta de apoios do Estado, portanto. O malvado poder público, que não faz nada pela iniciativa privada - sendo que aqui a palavra chave é privada. Não reclamo pagar IRS porque é o meu dever, por muito que me doa cada vez ser mais. E, não sendo empreendedora, não reclamo pagar IVA, que por acaso até é dinheiro do freguês, do qual o tal empreendedor é mero depositário, uma espécie de intermediário que o cobra ao consumidor final e entrega ao Estado. Se é muito, pois é; mas quem o paga é consumidor. Se desincentiva o consumo, isso é que é chato, mas recebê-lo e entregá-lo ao Estado é sinal que se vendeu.
Mas se calhar é birra minha, e estou a ver tudo mal. É que, vejam lá, achava e acho que ser empreendedor, ajudando este país a andar para a frente, não se fazia indo comprar surrobeco made in China a feiras de trapos mal amanhados lá fora, e vender cá o poliéster por preços que igualam o grama de ouro. Julgava eu, e julgo, que fazer andar o país para a frente tinha que ver com apostar na produção nacional, a tal que dá emprego a quem cá trabalha, e cá paga segurança social e IRS, e assim contribuir para aumentar a riqueza de todos. Mas, como disse, sou uma rapariga, simples e não do campo, mas suburbana. Ainda por cima estado-dependente para trabalhar e comer. E decerto não percebo nada disto.
[no dia em que tivermos polícias a trabalhar em outsorcing a gente conversa: já faltou mais]