Segunda-feira, 30 de Abril de 2012

Eu que não me comovo por tudo e por nada

Fiquei com um calorzinho cá dentro quando li no jornal a reacção de centenas (milhares?) de noruegueses, reunidos em frente do tribunal, a cantar uma música de paz e união, que parece que a besta sanguinária odeia. Claro que logo, logo secou o húmido que se me instalara nos olhos para dar lugar à inveja pura daquela gente, e um ódio seco a papais por terem feito nascer uns quilómetros abaixo do que devia. Adiante, comove-me sobretudo o grau de civismo, de evolução civilizacional de quem cura as suas feridas assim. Fosse por cá teríamos carpideiras histéricas e populares de bigode a pedir a cabeça do indivíduo, cada um a berrar mais que o do lado a ver se passavam no casting para abrir o jornal da tvi. Nem era preciso conhecer uma vítima: diz a experiência que bastava ter sido alguém da terra (bocejo) ou o filho de uma prima em segundo grau do cunhado, e que nunca viram (tédio) para reclamarem o direito à justiça popular. Mas se estas atitudes me causam aborrecimento profundo vindas da populaça inguinorante, quando ouço pessoas com escolinha feita ao nível de ensino superior, e pasme-se, até na área do direito, a dizer que se poupava o dinheiro do julgamento (!!!!) e era entregá-lo às famílias das vítimas (!!!!), percebe-se que pode-se tirar a pessoa da barraca e até dar-lhe roupinha bonita e um canudo, mas não se tira a barraca da pessoa. Já nem discutindo a minha opinião relativamente à pena de morte (contra, sempre), e asco quanto a justiça popular, linchamentos e o raio que o parta (coisa de selvagens), acho que aquele povo, aquelas famílias, que sofreram na carne uma dor cuja intensidade nem consigo imaginar, estão a dar ao mundo uma lição de nobreza e de dignidade que devíamos guardar bem na memória e até apontar num caderninho. Aquele julgamento não lhes serve como desculpa para manifestações públicas de gritaria, inquéritos populares sobre o que achariam adequado fazer ao tipo, ou debates sobre a necessidade da revisão do código penal ao sabor dos acontecimentos. Fazem, com o julgamento, uma catarse necessária, mesmo sabendo que a medida da pena nunca lhes apagará o sofrimento ou a lembrança da perda. E retribuem-lhe, não com uma injecção letal ou um nó corrediço, mas com a serenidade de quem sabe do que é feito, e que é de humanidade, de quem não esquece nem perdoa mas se recusa a igualá-lo na barbárie. E isto é bem bonito, e isto comove-me (repito) e isto dá-me uma esperança do caraças na humanidade.


(sem embargo, para um nível de sociopatia ou psicopatia daqueles acharia plenamente justificada uma pena de prisão perpétua, porque se trata de indivíduo que comprovadamente não pode viver no meio das outras pessoas. mas isso agora são contas de outro rosário, e se calhar, se o julgarem inimputável, talvez seja possível que nunca mais seja solto.)

Positivamente abestalhada

Declaração de IRS entregue. No último dia, pois está claro, que eu não sou pessoa de pressas, e muito menos neste ano, que se anunciava de total ruína em termos de deduções confesso que andava comidinha de medo de ainda nos sobrar alguma coisinha para pagar. Pois que não: vamos receber. Não tanto como no ano passado, mas quase, e não é coisa de somenos importância. (pulinhos)

Ego inflado. Validei não só a minha faceta de procrastinadora nata que consegue sempre cortar a meta no último segundo, como também a de grande e meritória CFO doméstica. Acho que me vou atribuir um prémio de desempenho.

Domingo, 29 de Abril de 2012

Quem é vivo sempre aparece

No meu caso, apenas para partilhar com o vasto auditório o desabafo de "rameira que deu à luz o site das finanças". É preciso alguma senha secreta para conseguir entrar?

(já sei, já sei, não fosse de véspera. but that wouldn't be me.)

Terça-feira, 24 de Abril de 2012

Silent mode

A minha pessoa deprimiu. O temperamento da minha pessoa está assim como o tempo, encoberto, que nem chove nem faz sol, muito empata, muito coisinho. A minha pessoa está portanto numa de ennui sazonal, a sentir-se tristinha, muito desgraçada e desamparadinha, muito calimera tirando a casquinha de ovo na cabeçorra, a pensar nobody loves me, nobody cares for me. A minha pessoa, todavia, não tem actualmente mais ralações que o normal, pronto, mais um tiquinho de nada, pelo que não há razões objectivas para se sentir a sub-cave da humanidade, mas a minha pessoa é mesmo assim, tem estes azuis escuros acinzentados de vez em quando e só lhe resta esperar que passe.
A minha pessoa, porque ainda não se tornou totalmente insensível e ainda é uma neurótica de primeira apanha, sente a necessidade de o explicar, não tanto para receber festinhas na cabeça, um there, there, um isso passa, mas para pedir desculpinhas por andar a ligar menos ao amável público desta tasca o que o amável público merece. A minha pessoa espera retornar ao seu usual self de parvalhona inconsequente em breve, e assim. Até lá, sirvo bicas mecanicamente, faço trocos, dou os bons dias à freguesia, mas não esperem grandes conversas; agradecida pela amabilidade demonstrada.

Quinta-feira, 19 de Abril de 2012

Iliteracia é o novo analfabetismo

Será possível que alguém, que completou um curso superior a que se acede após frequência do ensino secundário na área de estudos humanísticos, seja capaz de escrever um texto de forma totalmente incoerente, não logrando descrever um determinado evento com princípio, meio e fim, polvilhando a narrativa com vírgulas que parecem caídas de um saleiro chocalhado por um doente de parkinson, deixando o leitor à beira das lágrimas porque após várias leituras ainda não percebeu bem o que raios é aquilo, ou o que se pretende com aquilo (para além do propósito óbvio de tentar levar à loucura o tal desgraçado leitor)?

Sim, é possível.
Tenho provas.
(acreditem, já li coisas escritas por gente com a 4ª classe que faziam mais sentido)

Valar Morghulis*

Li ontem uma reportagem na Visão que foi como um raio de luz, uma epifania, uma revelação. Versava tal reportagem sobre as duas instituições de ensino superior que maior empregabilidade têm, a saber, a nova e a católica, ambas na área de economia e finanças. Como sou uma gaja pré-Bolonha não percebi muito bem se se tratava de licenciaturas, masters ou mestrados, mas era uma coisa muito posh, muito à frente, e que garante emprego bão na banca, mercados financeiros e tal, ou seja, é passaporte para uma carreira de sucesso, fatinho completo dia sim dia sim, poucas horas de sono, rebeubéu pardais ao ninho.

Mas falava eu das minhas revelações, e o blog é meu e ao menos aqui o que interessa é moi, pelo que avancemos a falar de me. A primeira de todas é que de facto eu sou uma mulher da renascença (período histórico e não estação de rádio): uma antiguidade que já não existe e já não se usa. A rapaziada que frequenta tais cursos é, a avaliar pelos exemplos, rapaziada com ar muito lavadinho e composto, altamente motivada, habituada a dispor do seu tempo entre estudos, desporto, voluntariado. Parece que aquelas instituições de ensino valorizam este tipo de coisas, a começar pela cena do "altamente motivado", mas também actividades extra-curriculares como desporto e voluntariado que, pelos vistos, demonstram espírito competitivo e de entrega, capacidade de trabalhar em equipa e motivação para resultados, e capacidade de gestão do tempo por várias actividades. E aqui eu, do alto dos meus 40 anos, senti-me velha, muito velha. É que quando eu era chavala achava-me altamente motivada, mas nada neste sentido. Era altamente motivada a ter boas notas, sim senhora, mas principalmente a viver muito e intensamente, a arrebanhar cada gotinha de tudo o que me interessava, e era muito. Era menina para achar que uma boa gestão do meu tempo consistia em ficar a acabar aquele livro fascinante até às cinco da matina, e baldar-me à primeira aula do dia na faculdade, que se lixe. Passei muito do meu tempo de adolescente a polir esquinas, a jogar conversa fora em cafés, a mudar o mundo em debates atrás do pavilhão. No 11º ano, quando a stora de filosofia me sugeriu fazer o último teste facultativo de melhoria, no meu caso para subir a nota para 18, respondi-lhe que não valia o esforço e tempo que perderia a estudar, pois o que contava era a média do 10º e 11º, e essa seria sempre 17. E acho que isto demonstra a minha orientação para os resultados, a sério. Nunca gostei de desporto, preferia ler e desenhar. Sou e era uma individualista, com pouca apetência e competência social, apesar de saber manter uma conversa educada e ser capaz de conciliar interesses, mas só se for mesmo preciso (e é, muitas vezes), e na medida em que é preciso. Cansa-me, pá. As pessoas cansam-me. O local de trabalho não é, definitivamente, o meu poiso de eleição; não ando aqui para fazer amigos, e a prioridade é fazer as coisas bem feitas, que é, mas aproveitar o resto que me interessa, e é muito. Ou seja, neste actual modelo social nunca me safaria. Se hoje tivesse vinte e poucos seria uma curiosidade, uma fulana castiça, mas nunca destinada a uma carreira de sucesso, ao menos na forma como esta é definida actualmente.

A segunda revelação vem na sequência da primeira: não me chateia nada ser o que sou. Ao ler ali a vidinha de rapaziada de vinte e poucos, geniozinhos da alta finança com carreiras de sucesso na city londrina, que dormem cinco horas por noite e trabalham às dezasseis horas de cada vez, que um dia, com a minha idade deverão ganhar o que eu nem sonho, não me chateia nada ser o que sou. Não lhes invejo nem um segundo a vida que levam, nem os benefícios que recolhem da mesma. Porque, para mim, o que vale, é o que ao fim do dia de trabalho se leva para casa. O que se faz depois. O que se faz para além de. O que conta é que um dia, à beira da morte, possa pensar "eia, fiz tanta coisa fixe", e não o tempo que passei no trabalhinho, a ser um modelo de sei lá bem o quê. Nesse dia quero pensar nas pessoas que amei e que me lembrem pelo que sou e não pelo que fiz ou pela carreira que tive. Não quero um epitáfio de mulher ou profissional de sucesso (às tantas falecida de avc ou ataque cardíaco nos 50), mas uma festa, que batam em latas como dizia o poeta, que possam dizer "esta gaja gozou-a bem, comeu, leu, viu filmes e visitou outros países, amou, divertiu-se, anhou." E foi bom, e gostou. Para mim, chega. E é muito.

*googlem

Terça-feira, 17 de Abril de 2012

Londres 2012 - Onde gastar uns trocos (muito valentes)

Londres: a cidade da tentação e moeda forte. O difícil é escapar sem espatifar umas valentes libras, mas um gajo tenta passar sempre por entre os pingos da chuva. Comecemos pelo meu departamento preferido: livralhada e cangalhada, onde Izzie Maria gosta de a ver e adquirir.

Quanto a livros, e desde que a amazon faz envios sem portes pagos para Portugal, deixou de valer grandemente a pena. Do outro lado do oceano é que são mesmo muito mais baratos, e na amazon inglesa há sempre uns descontinhos que valem muito a pena. Ainda assim, é sempre um bom passeio, ver os escaparates para uma pessoa se actualizar sobre o que saiu agora - e daqui a uns tempos vai estar traduzido ou em paperback, mais barato. Primeiro poiso, no nosso caso obrigatório e de paixão assolapada: Waterstone's Piccadilly, cinco pisos de loucura, emoção e desvario. Vale a pena estragar algumas notinhas nas promoções (e eu estraguei: leve dois e paga metade do segundo? nem se pergunta). Se quiserem descansar as perninhas e tomar qualquer coisa, vão ao café da sub-cave e não ao do 5º piso, onde estão a competir pelo pior serviço ever, taco a taco com a esplanada da Graça.

Depois, há lojinhas de livros mais castiças. Os alfarrabistas e livrarias de bairro na zona de Covent Garden valem bem a pena, principalmente se procuram pechinchas em segunda mão, ou coisas muito especializadas. Entrámos numa em Charing Cross Road (há muitas) que tinha uma secção de cinema, história e segunda guerra que faz favor. Mate sai de lá com uma raridade, e mais outra curiosidade. Também demos com uma lojinha com tudo, mas tudo sobre musicais, ali numa das ruas que desemboca em Seven Dials: avançai.

Já que estão na zona, é aproveitar e fazer uma visitinha à Forbidden Planet, esse antro de perdição, na Shaftsbury Avenue. Ó aqui fotinha da montra:

Pois, é uma loja de cangalhada, com t-shirts, bonecada, canecada, um piso de entrada cheio de tentações onde caímos alegremente (sai t-shirt da casa Stark e caneca do Dr. Who), e uma cave cheia de livralhada de ficção científica, fantasia, BD, tudo, tudo. Uma coisa de doidos, vos juro.

Agora que já estão carregados que nem mulas de almocreves, é ir aprochegando da estação de Covent Garden e ir dando um passeio pelas redondezas. Melhor: façam o caminho inverso, Covent Garden, Leiscester Square, Piccadilly, é um belo passeio. Explorem bem o mercado, cheio de lojinhas permanentes, bancas de crafts, ou, se a apanharem, a feira de velharias. Olha a t-shirt gira, gira que avistámos numa lojinha:
Acenem de longe às lojas de marca, que há melhor para ver. Sigam a espiolhar as ruas, ruelas e becos em redor, sigam até Seven Dials, façam muito window shopping ou, se forem mesmo abonados, estraguem-se valentemente nas imensas sapatarias muito apetecíveis (hunter, doc martens, birkenstock, camper e fly london com fartura, mas atenção que os preços são de igual para cima), ou nas boutiques fofuchas e com coisas mesmo originais e para lá de giras. Não percam este beco de seu nome Neal's Yard, nem que seja só para tirar umas pics:
E pronto, por hoje ficamos por aqui. De féchion falamos depois, boa? Boa.

Ser famoso em Portugal: tentativa de definição

Tratar como bens adquiridos, pagos e arrumados as centenas que te adoram, e nem lhes dirigir mais que umas palavritas de apreço de vez em quando;
Embarcar em inflamados discursos que implicam dissertações explícitas ou implícitas sobre temas como "inveja", "mesquinhez" ou "como convive mal o português com o sucesso dos outros" quando meia dúzia te gozam, criticam, ou insultam.

Segunda-feira, 16 de Abril de 2012

Também vou escrever livros sobre trivialidades e banalidades e ficar famosa

Já tenho dois títalos:

Pisca-Pisca: Esse Zingarelho Desconhecido
Manual de Civilidade Rodoviária para Táxistas

Rásparta os Ciquelistas
Manual Rodoviário para Auto-Motoristas em Duas Rodas


Este último é basicamente um resumo do código da estrada, mas com ilustrações e dichotes com muita piada, tipo os perigos de andarem em contra-mão, ou de não cederem passagem (aposto que os nhurros não sabem que nunca têm prioridade - ah pois, qu'isto aqui num é a Holanda). Espero que se tornem ambos bestecéleres e ofertas preferênciais a estes interessantes e patuscos grupos sociais! E depois dou autógrafos onde quiserem, na praça de táxis do Rossio, na ciclovia da Duque d'Ávila, Mercado de Sapadores, Feira da Ladra, é só dizer e eu vou; por dez aérios a cabeça até se combina um almoço cumbíbio no Parque de Monsanto, com sande de rissol (de camarão, claro, isto é gente grumê), pastel de bacalhau, franguinho asssado, tinto do garrafão, e sumás de ananol, com concurso de anedotas de táxistas e partilha de experiências tenebrosas nos fogareiros da capital e tudo.

Tudo atento às montras das livrarias e tópe da fenáque, já para não dizer aqui do blog, que vou falar do assunto até me pagarem para me calar e achar que já vos explorei o suficiente.

Sábado, 14 de Abril de 2012

Capacho da alma

Há algo que às vezes me é muito difícil explicar, e é o seguinte: porque fico muitas vezes no trabalho mais uma hora do que preciso, a anhar por completo, a ler blogs, a ver vídeos de investigação de real crime ou qualquer outro documentário que me apeteça, quando podia ir a horas decentes para casa, mais cedo do que efectivamente vou. Há dias em que fico apenas aquela meia horita, que pode esticar até mais de uma horita, a jogar solitário, freecell ou spider. E juro, juro que sim, que tenho melhor que aquilo à minha espera, que em casa é que estava bem, eu sei, e sim, gostava mesmo de lá estar. Mas preciso de passar por este processo de limpeza, uma espécie de duche como se vê em filmes, que os empregados de centrais nucleares tomam para limpar radiação. É que se há dias em que as histórias dos outros não nos maçam muito, não nos fazem corar, não nos indignam, não não envergonham, não nos fazem agoniar, não nos revoltam, não nos pesam, não nos exaurem, dias há em que para retirar os anzóis da pele, branquear as gotas de sangue, enxugar o suor da testa, alisar as rugas em volta dos olhos, limpar os salpicos de merda que nos deixam por todo o corpinho é preciso mais tempo, mais uns minutos só nossos, de algo completamente diferente, algo que nos leve para longe, nos limpe a cache, formate o disco. Como passar os pés no capacho antes de entrar em casa e, uma vez aí chegados, nos podermos dar, de alma limpa, a quem nos merece no nosso melhor.

(na sexta feira senti-me como um Hércules perante as cavalariças de não sei quem, e sem um rio para desviar, caneco)

Quinta-feira, 12 de Abril de 2012

Londres 2012 - The Golden Age of Grotesque

Antes de mais, dois disclaimers: a) sim, o título é gamado do título de uma canção e álbum de Marilyn Manson, b) não sou entendida em arte contemporânea, aliás, sou uma furiosa céptica, e isto não passa de uma opinião muito minha.

Passado este intróito, vamos ao que interessa, ou não, conforme o ponto de vista, e o assunto é Damien Hirst, que tem na Tate Modern uma exposição muito bem recheadinha. Comecei pelo rés-do-chão, sala da turbina, e a sua mui afamada caveira coberta de brilhantes. O título da obra pareceu-me muito adequado: For the Love of God é a exclamação que me ocorreu, de facto. Já agora, os dentinhos são do indivíduo que, muito provavelmente sem saber, porque já morreu há um ror de anos, forneceu a caveirinha que serviu de molde. Tadinho, nem pode valer-se da fama póstuma.


Entrados na exposição propriamente dita, muito concorrida ou não fosse este senhor um dos mais badalados, adorados, contestados artistas contemporâneos, o mais rico e vivo, começa-se de forma suave com obras que seguem uma linha já muito vista e esgotada (bocejo): objectos do quotidiano pintados e expostos de uma forma que é supostamente simbólica de qualquer coisa que me escapa, geometrias, os famosos quadros de bolinhas que não envergonhariam qualquer decorador de interiores se fossem comercializados como papel de parede. Para os mais ignorantes sobre o que se segue, já há numa parede uma fotografia que poderá servir como aviso: o artista em novo, de expressão grotescamente esfusiante, posando ao lado de uma cabeça humana.

E se o pior vem depois. Eu já ía preparada, que li uma review no jornal, mas ainda assim, ainda assim. Digamos que para mesmo os leigos fica patente que a linha condutora do trabalho de Hirst segue uma clara obsessão com a morte, ou não fossem verdadeiras naturezas mortas o teor da exposição. Verdade seja dita, o homem tem um sentido de humor negro e um jeito para arranjar títulos que me agradam mais agora, à distância, e que não tenho diante dos olhos tanto bicho conservado em tinas de formol. Não me vomitei toda, mas que hiperventilei, hiperventilei. Dispensei passar por entre os recipientes onde se exibiam Mother and Child Divided (vaca e vitelo, em formol, cortadinhos ao meio), evitei fitar de frente The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living (o famoso tubarão), e não entrei na fila para In and Out of Love (a salinha de borboletas vivas, com entrada controlada), porque esta ficava mesmo em frente a A Thousand Years, a peça que evitei a todo o custo encarar, que ao meio dia o estômago não estava preparado para aquele nível de macabro e, segundo mate, a peça já cheirava (fomos dois dias depois da abertura, nem quero imaginar quem lá vá daqui a um mês ou dois).

Seguem-se obras tudo nada diferentes, e felizmente já não compostas por materiais (ahém) perecíveis. Tenho de admitir que gostei das vitrines de farmácias (a Pharmacy propriamente dita já conhecia, vi-a na Tate Modern já há uns anos, acho que faz parte da permanente), das vitrines de comprimidinhos, um conjunto chamado Lullaby (sweet, gostei), a vitrine de beatas de cigarro (The Abyss, o homem é bom com títulos, de facto), e as vitrines de zircónias (Memories of/Moments with You, outro título genial).



Passa-se a uma sala mais bonita, o coração suspira de alívio, isto até percebermos que aquelas maravilhosas composições a lembrar vitrais foram feitas com colagem de asas de borboletas. sim, the real thing, não é papelinho colorido. No fim, uma atroz, sádica promessa de redenção: The Anatomy of an Angel, e a pomba branca suspensa em formol a despedir-nos, The Incomplete Truth.



Para quem esteja interessado, seja pouco impressionável, ou tenha um estômago forte, podem consultar toda a exposição aqui. Não é o mesmo que o cara a cara, mas ao menos não ficam como eu fiquei.

Confesso que saí de lá balbuciando várias e repetidas vezes a palavra crueldade. Sim, aquilo é de uma crueldade atroz. Chocou-me a insensibilidade, a frieza, a vulgaridade da morte, a utilização da vida finda para o propósito de fazer arte. Seja lá o que isso seja. Mas, se é assim tão mau, tão desprovido de sentido e valor, porque é que o senhor Hirst me provocou uma reacção tão forte, uma lembrança tão vívida, que ainda hoje perdura?, porque dou comigo a meditar no sentido de tudo aquilo, de como me faz relacionar com momentos da minha vida, com a minha finitude? Diabos o carreguem. Really.

(e há Picasso na Tate Britain, bem bonito, e diz que ao tempo dele as pessoas também o etiquetaram com epítetos jeitosos)

Este blogue avisa o governo

No meu carro mando eu. Lá dentro usa-se cinto de segurança, carrega-se muita tralha, há uma bagageira atafulhada de porcaria que já me mereceu uma valente rabecada por parte de mamãe (e que aturei estoicamente, porque enquanto mamãe ralhava mamãe arrumava, e há que saber dar valor à família) e fuma-se. Sim, fuma-se. Eu não, porque tenho consciência das minhas limitações e espectro de atenção, e não pego em telemóveis seja para o que for nem distraio as mãozinhas com pauzinhos fumegantes enquanto conduzo, mas fuma quem quiser e se quiser. No meu carro não são transportadas crianças mas, quando são, levam os cintos postos e ninguém fuma, porque somos pessoas com dois dedos de testa que não precisam de lei ou decreto que lhes explique que faz mal. Se há pais ou familiares com sérios problemas cognitivos e que fumam na presença de seus petizes, em ambiente fechado, their bad, não tenho nada a ver com isso, e tal não dá o direito a que se legisle sobre o que se faz no me mobile e, já agora, também lá em casa, porque não, há crianças no prédio e deumalibre de as riquezas sentirem nem ao de longe, muito tenuamente, o cheiro do meu fumo.
Já agora, e antes que se lembrem de mandar a asae bater à minha porta, lá em casa também se come manteiga, muito ocasionalmente fritos, há sal grosso e fino a que se dá uso, e agora multem-me lá, ó pulhas, tranquem-me na penitenciária, a regime de salada durante meses, a ver se me rala, ó fundamentalistas de merda.

Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

A minha vida é muito complicada e tenho problemas

São sempre muitos, variados e completamente imprestáveis, para além do que agora mais me aflige, e que é ter um sacão de vidros para reciclar na mala do carro, e que não consigo deitar no vidrão, porque o barulho do vidro a quebrar provoca-me nevralgias insuportáveis e crises de nervos muito agudas. São traumas, traumas que não sei de onde vêm nem quero saber, e duvido que até a Freud interessassem.

Portanto, e enquanto ainda me habituo a esta miséria que é voltar de férias e encarar o trabalheco que me paga o pãozinho, principalmente quando lá por casa vegetam mate e gata na mais obscena ronha, não há condições para produzir, mesmo quando já tenho um post todo escrito nesta brilhante cabecita mas não me convenço a teclá-lo. Tenho preguiça. Lamento. Até jazinho e de caminho desejem-me as melhoras, que são sempre necessárias e bem empregues.

Segunda-feira, 9 de Abril de 2012

Londres 2012 - The best of the best

Antes de mais, e de tudo o que vimos, tenho de realçar esta pequena história. É uma história especial, e que não falará apenas aos corações dos cat-lovers que por aí abundam. Passeávamos nós na nossa primeira tarde em Londres, nas ruas que rodeiam Covent Garden (um passeio sempre obrigatório), quando damos com uma imagem nada usual: um sem abrigo com o seu animal de estimação. Não um cão, como é muito habitual ver nas ruas de Londres, os companheiros e amigos mais frequentes dos sem tecto, mas um gato, um laranjinha, de cachecol ao pescoço. Estavam ambos rodeados de algumas pessoas, pareceu-me uma família, com crianças hiper-excitadas a fazer uma enorme festa ao bichinho muito sossegado, embora as orelhitas puxadas para trás não deixassem de trair a paciência e estoicismo com que suportava os admiradores. Como totós por bichos (especialmente gatos) que somos, claro que abrandámos o passo e ficámos a contemplar a cena, até que vi o companheiro humano a assinar um livro que a família lhe tinha estendido. Só percebi uns valentes metros à frente, quando passámos pela montra de uma livraria, que James Bowen e Bob são já celebridades londrinas, e autores do novo bestseller A Street Cat Named Bob. Folhei-o na Waterstone e fiquei com o coraçãozito em papas. Não o comprei logo, preferi esperar pela versão paperback, mas uma vez que esta apenas sai em Setembro, acho que a hardcover vai fazer o seu caminho da Amazon até nuestra casita antes disso (agora está esgotado, e eu já arrependida de não o ter trazido.).

Mesmo sem ter lido, fica a recomendação.
"When James Bowen found an injured, ginger street cat curled up in the hallway of his sheltered accommodation, he had no idea just how much his life was about to change. James was living hand to mouth on the streets of London and the last thing he needed was a pet.


Yet James couldn't resist helping the strikingly intelligent tom cat, whom he quickly christened Bob. He slowly nursed Bob back to health and then sent the cat on his way, imagining he would never see him again. But Bob had other ideas.


Soon the two were inseparable and their diverse, comic and occasionally dangerous adventures would transform both their lives, slowly healing the scars of each other's troubled pasts.


A Street Cat Named Bob is a moving and uplifting story that will touch the heart of anyone who reads it."
(da Amazon.co.uk)

(quem depois disto ainda defender que os gatos são seres frios e sem coração, e não se convença da sua lealdade e amizade a quem verdadeiramente lhes quer bem, ainda lhes descrevo a cena de recepção a casa a que tivémos direito ontem.)

Então e novidades?

Ainda não foi rifado, o nosso querido país? Ainda bem, ainda bem. Mas não ponham a ideia de lado, para já.

Pois lá por cima pelas Englands esteve-se muito bem, a libra forte e recomenda-se, tudo caro p'a caracinhas, aqui a labrega a lacrimejar cada vez que o metro chegava à estação, com mais carruagens que conseguia contar, a intervalos de 3 ou mesmo 2 minutos entre composições, com funcionários em barda para orientar o people estrangeiro e autóctone, painéis de informação ao público sobre a circulação, on time, on the spot, e volta e meia uma voz no altifalante a assegurar que a circulação se fazia de forma normal e sem atrasos em todas as linhas. E nós, os bimbos novos-ricos, com (dúzia e meia de) estações museus, que (nos) custaram o cuzinho e cinco tostões, mas são muito lindas, que são, e deram de comer a meia dúzia de artistas durante uns tempinhos. Oh, alegria.

O bom tempo, esse, ninguém nos tira, verdade; tal como os plátanos já cheios de folhas. Mas mesmo sendo uma saloia de uma Dorothy que ainda sente que there's no place like home, ainda assim gostava de sentir menos potencial e mais concretização. Este é um país de oportunidades à espera de acontecer, há demasiado tempo.

(a ver como páram as modas no trabalho que ainda existe - aleluia - uns iógrutes para comprar, um depósito para atestar - ultimamente sinto-me muito crente quando o faço, toda eu sou aimeudeuses - e diz mate via sms que o computas lá de casa não funcemina, o que são mesmo boas notícias de regresso. até já.)

Segunda-feira, 2 de Abril de 2012

Um dia

Talvez nos tornemos um daqueles casais respeitáveis, que aos domingos almoçam na mãe dele, jantam na mãe dela, e entremeiam com um lanche a dois num sítio aconselhado nas revistas. Que marcam férias em destinos quentinhos, tropicais, com auguinha tépida, onde um gajo possa encher o prato em pirâmide no buffet porque é tudo incluído, é aproveitar; de onde se volta com um bronze de inveja, excepto ali no pulso, onde durante uns dias ainda exibimos a pulseirinha do resort, para que a ninguém restem dúvidas, mesmo depois de encher a paciência de todos os colegas de trabalho com o powerpoint das férias. Ou então aproveitamos o Carnaval ou a Páscoa para ir para a nêve, escorregar pelas pistas no meio dos outros quinhentos labregos também mortos de medo de partir uma perninha. Fazemos gala em usar termos como fórfé, apréssequi, e tantos outros que nem sei mas decerto aprenderei. Como não teremos guita para destinos mais in, lá iremos para a Serra Nevada, ao volante do nosso jipão branco, a pagar em noventa e tal prestações; na garagem box ficou o bmw dos mais piquenos, em segunda mão, foi uma pichincha.

Enquanto esse dia não chega, ficamos um bocado histéricos de parvos em ir cinco dias apanhar chuva e frio de rachar em Londres, e ando eu, a ateia convicta, a apelar a uma qualquer divindade que ao menos não me chova ao sábado e domingo, dias de Camden e East End, ai os mercados; a torcer dedos para conseguir entradas para a exposição do Damien Hirsh que abre depois de amanhã, e ao mesmo tempo a mentalizar-se para não bolsar ao ver o tubarão em formol. Já temos uma listinha de livros, as máquinas pelingráficas a carregar, montes de vontadinhas, e a certeza de que não chegamos para tudo.

Até lá, inté, fiquem bem aqui no clima tropicáu que eu volto já.

Ou então é o tal do empreendedorismo de que se fala

Um gajo começa a achar que se calhar as coisas andam mesmo, mesmo, mesmo mal quando vê um fulano de muitíssimo bom aspecto, trinta e poucos, vestido de fato-macaco, parado no sinal, de garrafa com detergente e rodo limpa-vidros na mão, que oferece os seus serviços aos automobilistas.

Domingo, 1 de Abril de 2012

A problemática das fotografias de férias e de fazer a mala

Como se não fosse já muito complicado fazer a mala para um clima com temperaturas uns dez graus abaixo das nossas (um gajo habitua-se ao quentinho, que fazer), uma pessoa constata que o seu guarda-roupa é basicamente a) básico; b) monótono; c) repetitivo; d) e com muitas peças que já possuía aqui há três anos. Qual o problema disto? Ora, as fotografias de férias. Resumidamente, tenho de decidir se vou ficar com fotografias iguais a Londres Páscoa 2009 ou NY Páscoa 2010.
Entretanto, uma amiga (uma pobre desgraçada que atura desabafos deste calibre, taduxa, e só por isso merecia ganhar um valente prémio no eurocoiso) deu-me a solução do problema, e vou vestida igual a NY Páscoa 2010: se alguém notar a similitude da roupinha, foi aquela vez que dei a volta ao mundo. Não se está mesmo a ver?

Recado a todo o mundo feminino

Sempre que usam o termo "mal-comida" ou equivalente, morre um lindo e raro unicórnio.
Sempre que lançam mão do argumento da inveja, há uma fadinha que exala o seu último suspiro.
Pronto, já não é por falta de aviso.