Fiquei com um calorzinho cá dentro quando li no jornal a reacção de centenas (milhares?) de noruegueses, reunidos em frente do tribunal, a cantar uma música de paz e união, que parece que a besta sanguinária odeia. Claro que logo, logo secou o húmido que se me instalara nos olhos para dar lugar à inveja pura daquela gente, e um ódio seco a papais por terem feito nascer uns quilómetros abaixo do que devia. Adiante, comove-me sobretudo o grau de civismo, de evolução civilizacional de quem cura as suas feridas assim. Fosse por cá teríamos carpideiras histéricas e populares de bigode a pedir a cabeça do indivíduo, cada um a berrar mais que o do lado a ver se passavam no casting para abrir o jornal da tvi. Nem era preciso conhecer uma vítima: diz a experiência que bastava ter sido alguém da terra (bocejo) ou o filho de uma prima em segundo grau do cunhado, e que nunca viram (tédio) para reclamarem o direito à justiça popular. Mas se estas atitudes me causam aborrecimento profundo vindas da populaça inguinorante, quando ouço pessoas com escolinha feita ao nível de ensino superior, e pasme-se, até na área do direito, a dizer que se poupava o dinheiro do julgamento (!!!!) e era entregá-lo às famílias das vítimas (!!!!), percebe-se que pode-se tirar a pessoa da barraca e até dar-lhe roupinha bonita e um canudo, mas não se tira a barraca da pessoa. Já nem discutindo a minha opinião relativamente à pena de morte (contra, sempre), e asco quanto a justiça popular, linchamentos e o raio que o parta (coisa de selvagens), acho que aquele povo, aquelas famílias, que sofreram na carne uma dor cuja intensidade nem consigo imaginar, estão a dar ao mundo uma lição de nobreza e de dignidade que devíamos guardar bem na memória e até apontar num caderninho. Aquele julgamento não lhes serve como desculpa para manifestações públicas de gritaria, inquéritos populares sobre o que achariam adequado fazer ao tipo, ou debates sobre a necessidade da revisão do código penal ao sabor dos acontecimentos. Fazem, com o julgamento, uma catarse necessária, mesmo sabendo que a medida da pena nunca lhes apagará o sofrimento ou a lembrança da perda. E retribuem-lhe, não com uma injecção letal ou um nó corrediço, mas com a serenidade de quem sabe do que é feito, e que é de humanidade, de quem não esquece nem perdoa mas se recusa a igualá-lo na barbárie. E isto é bem bonito, e isto comove-me (repito) e isto dá-me uma esperança do caraças na humanidade.
(sem embargo, para um nível de sociopatia ou psicopatia daqueles acharia plenamente justificada uma pena de prisão perpétua, porque se trata de indivíduo que comprovadamente não pode viver no meio das outras pessoas. mas isso agora são contas de outro rosário, e se calhar, se o julgarem inimputável, talvez seja possível que nunca mais seja solto.)



