Em primeiro lugar, e para que as pessoas que vão desistir de ler o post até ao fim (eu sei que as há), deixo já a mensagem de início. Dois links, uma criança e uma família a precisar de ajuda, e quem puder dar uma mãozinha, decerto será muito apreciada.
Agora o resto. Pensei um bom bocado antes de deixar aqui estes links, e este pedido de auxílio. Não porque duvide do mérito da acção, nem pensar. Já tinha lido no Quadripolaridades a história e, apesar de me assumir como cabra insensível, é claro que me tocou. Depois a Ursa mailou e pediu. E porque hesitei eu em divulgar? Ora, porque tenho vergonha na cara. Porque me pareceu hipócrita estar aqui a apelar a que se inscrevam como dadores de medula quando eu não o vou fazer.
(e aqui debanda 99% dos leitores, enojadinhos, tudo bem, têm esse direito)
E porque não me inscrevo eu como doadora de medula, ó cabra, vê lá se te custa muito, hádes precisar, vais a ver, o karma é lixado.
Na boa, venha o karma. Assumo, e creiam-me que custa. Não sou capaz. Nem é porque nunca poderei ser doadora de sangue (por razões que não têm nada a ver com o que segue), nem de órgãos (fumadora, e nem as córneas se safam, estão como hão-de ir), nem por suspeitar que tenho uma cena que me impede (há vinte anos foi-me diagnosticado um desvio de disco que muito, muito provavelmente já é mais que isso, mas ainda não tive ensejo de confirmar). Acho que a maioria lhe chamaria miufa, cagufa, mas é mais que isso. É uma fobia fortíssima a agulhas. Para fazer análises é um castigo, e só o faço sob coacção. Sou, desde sempre, a anedota da família. Desmaio sempre que me tiram sangue, tenho de o fazer deitada (e ainda assim já desmaiei na horizontal). E isto para encher meia seringa, é uma semana em pânico, a hiperventilar, no dia lá vou muito a custo, e depois é o que eu cá sei. Só a título informativo, consegui furar as orelhas depois de recrutar uma tropa de amigas para me acompanhar, e impedir de fugir. True story. E ainda as tentei convencer que afinal tinha mudado de ideias. Acompanhei me mate a uma das suas sessões de tatuagem e, mal o fulano ligou a máquina e ouvi o bzzzz de agulhas, tive um desmaio. Isto tem origem numa situação por que passei ainda muito miúda, mas que recordo ao mais pequeno pormenor. Não interessa: ficou para sempre. O meu irmão está inscrito há anos, uma década, talvez; mandou-me os papéis, li tudo, informei-me na net e paralisei. Não consigo, lamento. Talvez um dia consiga ultrapassar isto, talvez um dia o universo me castigue com a necessidade de fazer hemodiálise ou quimio e aí, concretizado o meu maior pesadelo de me transformarem em almofada de agulhas, passador humano, podem todos os que desprezam esta fraqueza sentir-se vingados. Mas se acham que é uma coisa desprezível, que sou uma egoísta sem nome, uma fideputa sem redenção, tudo bem, estão no vosso direito. Adeus e até um dia.
23 comentários:
Eu gosto na mesma, igualzinho, de ti. E há mais formas de ajudar. E acabaste de o fazer!
Beijinhos*
:D não me surpreende nada o medo de agulhas, só me surpreende numa melher. Isto porque, lá no estaminé, foram lá fazer uma campanha para angariar dadores de medula e só vi mulheres a entrar lá para dentro. Perguntei a vários colegas meus porque não iam lá inscrever-se, aquilo era super rápido e estavam na porta do lado do nosso gabinete. resposta: medo de agulhas...
Pólo, obrigada. Sinto-me muito mal por isto, até porque há muitos anos que interiormente luto para ultrapassar (desde que o meu irmão se inscreveu).
Fuschia, o problema nem é tanto a recolha para análise de compatibilidade e ficar na base de dados (também é, pronto). É o depois, o dizerem-me que sou copmpatível, ser chamada, e poder reagir da pior forma, porque não sou capaz de seguir com o procedimento, que é bem mais complicado que uma pequena recolha. E aí nunca me conseguiria perdoar, e não consigo sequer por-me na posição de um dia ter que lidar com a minha fraqueza e estar do outro lado uma vida que depende de mim. Não tenho ilusões sobre mim, e temo não ter uma atitude heróica e abnegada.
Mas segundo me lembro, existem duas opções de doação de medula, a transfusão de sangue durante não sei quantas horas (a olhar para o fiozinho de sangue, imagino que até a mim isso me faria confusão) ou então tira-se a medula mesmo da coluna e nesse caso é com anestesia geral e ficas a dormiiirrr. Estou errada, ou mudaram isto entretanto?
Não é vergonha nenhuma ter medo de agulhas e, como disse a Quadripolaridades, há mais formas de ajudar, tal como a divulgação. Eu também tenho, conheço mais pessoas (mulheres, curiosamente) que tem por isso sempre dividi um bocado a população humana em: os que tem pânico de agulhas, seringas, bisturis e entranhas no geral, e os que não sentem nada quando vão dar sangue além de uma "picadinha no braço" (como a minha mãe costumava dizer para me sossegar) e que podiam muito bem ir para médicos houvesse vontade e cabeça. Eu escudo-me sempre atrás do meu peso para justificar o facto de não dar sangue e não ser dadora de médula (não chega a 50kg... requisito mínimo para dar) mas a verdade é que sofro dessa fobia irracional a agulhas e a saber que me estão a sugar qualquer coisa. (A minha mãe também diz que quando eu tiver um filho passa-me as caganices todas e eu espero que ela tenha toda a razão...)
Oh Izzie Maria, cada qual sabe de si e não vale a pena massacrar-se sobre isso. As fobias são lixadas mesmo.
Oh Fuchia, essa de agulhinha nos ossos mas com anestesia não é bem assim (dizia-me uma amiga que, infelizmente, passou por essas fases todas de remoção de medula).
Eu sou dadora de medula há anos e sou das dadoras de sangue para quem dar sangue é uma "picadela" de nada (em 15 anos de dádivas regulares só caí para o lado 3 vezes... é uma boa marca). E tenho a teoria que todos os dadores de sangue deviam ser automaticamente dadores de medula. É uma pena que as duas coisas estejam tão tão separadas. Tenho a sorte de, 2 vezes por ano, irem à minha empresa fazer recolha pelo que nem sequer tenho que me desviar da rotina habitual.
Mas nesta mesma empresa, quando foram fazer recolha de medula porque alguém do sector precisava de um transplante, e eu fui lá confirmar os meus dados e que era dadora (o que me lembra que mudei o nº de telemóvel e não os avisei - é importante que os nossos dados estejam sempre actualizados) e depois de 1 dia de recolha, num sítio que reúne muitas empresas, só 70 pessoas tinham lá ido. Achei tão triste.
À Bia desejo toda a sorte do mundo e como me disse muitas vezes uma amiga que, apesar de nunca ter tido um dador compatível ,fez um auto-transplante (não sei o nome técnico da coisa) e sobreviveu muitos anos: é preciso Acreditar sempre!
Não te martirizes com isso. O meu marido é igual. Já dei voltas e voltas e não consigo que ele se inscreva. E tal como diz a Pólo Norte ajudar não é só doar medula. É também divulgar. :)
Gostamos de ti à mesma porque és honesta ;)
o apêndice é igual, igual. o sonho da vossa vida é aquela cena do saw em que a moça cai na piscina cheia de seringas, não é? pois, imagino.
não te martirizes, é como diz a Pólo, há imensas formas de ajudar e esta é uma delas.
Izzie não penses muito nisso, pois parece-me que só alimenta a fobia. Eu nunca compreendi a fobia a agulas, mas também acho que a ideia não é compreendê-la, mas sim respeitar e aceitar quem a tem.
Eu também sou dadora há muitos anos (ainda hoje recebi uma mensagem do IPS curiosamente), não me custa nadinha ser picada, embora tenha alguma fobia a facas em determinadas posições e sobretudo nas mãos de outros (ok talvez não seja fobia, mas é uma merda qualquer que me dá nervos).
Tal como refere a Patricia, acho uma tolice que não cruzem os dados dos dadores de sangue com os potenciais dadores de medula, raios, então se já têm o sangue de milhares de pessoas porque não verificam se existe compatibilidade com pacientes que precisem e, caso exista, contactam o dador de sangue incentivando-o a ser dador de medula?! Digo eu que me parece uma técnica mais eficaz porque dificilmente alguém recusaria se soubesse da existência de alguém necessitado naquele momento! enfim...
Não usam anestesia? :/
Eu acho que quando eles recebem o sangue (banco de sangue) separam o plasma do resto e guardam só o que lhes interessa. Talvez "o que lhes interessa" não contenha mais a medula ou a informação sobre o tipo de medula. Digo eu.
Obrigada, y'all :) acreditem que me sinto fraca e menor por não ser capaz de vencer esta treta. Sou uma maricas, verdade, mas assumida. Aliás, se há coisa que me é fácil fazer é assumir os meus pecados e fraquezas (estava aqui o dia todo), o que não quer dizer que não lhes tente dar a volta.
Já agora, fuschia, para mim uma anestesia geral é também um drama. tubos e catéteres = pãnico total.
O que me disseram é que são duas instituições completamente diferentes e que os cruzamentos da base dedos não pode ser feito (e sinceramente já nem me lembro se era só inépcia ou mesmo uma questão legal).
Bem, não venho dizer nada de novo, apenas deixar mais um bocadinho de solidariedade. Mais vale ser-se honesto (consigo mesmo e com os outros), ainda que por vezes incompreendido, do que hipócrita, digo eu :) Por isso nah, nada desses pensamentos. Acho que este teu contributo é bem valioso. E por falar nisso, realmente é bem pensado partilhar lá no estaminé. Como tão pouca gente lê aquilo nem me lembrei e só partilhei via facebook. Mas para causas como esta, todas as ajudas são poucas.
eu cá adoro-te à mesma.
Lamechices de tanga à parte, gosto pouco de criticar ou opinar sobre o corpo e vida de terceiros. Gosto ainda menos de deixar que essas questões influenciem o que penso. Vai daí, não deixo.
For me, you're still the same Izzie.
(e se EU, consigo SINCERAMENTE encarar esta tua postura assim, não sei como existe quem se ache no direito de não o fazer)
Queen, não é valioso, é o que há.
SSV, thanks :)
Me, gostava de não ser assim, mas é. Não era é capaz de estar a apelar a que fizessem algo e ficar a fingir que eu também o faço. lamento.
Izzie, não sei se percebeste o que quis dizer. Acho muito bem que tenhas esclarecido que estás a fazer um apelo para o qual tu própria não contribuis. O que quis dizer é que não critico ou opino as atitudes de terceiros sobre o próprio corpo. Vai daí, essa tua fobia que leva a que sejas incapaz de ser dadora, não altera em nada a opinião que tenho acerca de ti.
Oh, eu nao posso, nem medula nem sangue nem nada. Tenho tendencia para a anemia... e so descobri isso porque tentei dar sangue em 3 ocasioes diferentes e nunca me deixaram (o meu tipo e' O... o que e' optimo para dar). Ainda nao percebi se isto 'e cronico ou nao... mas mesmo a tomar ferro meses a fio estou sempre abaixo do normal. A verdade e' k ja me avisaram para me por a pau e deixar-me da mania das refeicoes vegetarianas antes que isto vire cronico a serio e degenere em leucemia. E foi assim que deixei de ter pudor em comer vaquinha. Se bem que ainda so o consiga fazer no restaurante (custa-me cozinhar o bicho).
Ah, quem tem tendência para anemia não pode? Olha, então tenho motivo legítimo e não sabia. Tenho uma contagem de glóbulos vermelhos sempre rés-vés Campo de Ourique, e não há maneira de aquilo subir para valores confortáveis. Não me ralo muito, mas não posso ser maluca com a alimentação, ou estou tramada.
me, eu percebi :)
E'... tens que ter a hemoglobina acima de 12.5 acho eu (aqui no UK, em PT nao me lembro). Eu quando tenho a minha a 11 deito fogetes. O normal para a minha idade e' 14. Eu nao tenho fobia nenhuma a agulhas, grandes ou pequenas. Doaria sangue e medula de boa vontade, alias fui mesmo ja varias vezes aos centros de saude para o fazer. Mas nao posso. Agora ando um bocado acagacada com isto para te ser franca. Nunca imaginei que tivesse este problema.
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