Terça-feira, 29 de Maio de 2012

Zoologia, essa ciência tão esquecida

Olá pequeninos! Saudades da titi Izzie, e das suas educativas e interessantes prelecções? Eu sei! Eu sei! Acalmaide então vossas manifestações de júbilo por minha presença e sentaide-vos à minha roda, enquanto vos desvendo mais um mistério da natureza, desta feita sobre alguma da simpática fauna que faz deste ameno e florido rectângulo à beira mar seu habitat natural. Tomaide notas, que trataremos hoje de tema muito importante, todavia olvidado por tantos naturalistas, decerto invejosos por não possuirem em seus países este magnífico exemplar. Muitos chegam ao topete de negar a sua existência, outros simplesmente insistem em o incluirem no ramo mais genérco dos Lusitanus Simplex, mas nós, que cá vivemos, sabemos que se trata de uma derivação que merece qualificação própria.

Falamos do Trafullis piratus lusitanus, esse amável mamífero da família dos primatas. O Trafullis (chamemos-lhe assim, por comodidade) caminha sobre os dois membros inferiores, erecto, embora seja visível uma pequena curvatura na parte superior da coluna. Tal deve-se ao recorrente hábito que o exemplar desta espécie mantém de se fazer passar despercebido, e melhor se esgueirar, furtivamente, por entre a multidão, quando detectado. O Trafullis tem actividade recolectora e/ou caçadora: não produz quaisquer artefactos, não se dedica a trocas, nada. O Trafullis passa todo o seu tempo de vigília tentando detectar uma presa, enredá-la e cercá-la até a conduzir ao seu território natural, e ali a confrontando com determinada situação da qual só poderá sair se ofertar ao Trafullis todo o seu espólio. Então, e enquanto contempla o sucesso que o manterá durante muito tempo, é comum observar o Trafullis utilizando as extremidades dos membros superiores esfregando-as uma na outra, enquanto esboça um esgar que se pode assemelhar a satisfação; tal semblante, porém, é imediatamente desfeito quando se dá conta de ser observado, ou se encontra na presença de terceiros, perante os quais consegue justificar os inesperados ganhos com o seu esforço e mérito pessoal.  Apesar de se tratar de caçador que não despreza qualquer presa, o Trafullis tem especial apetência pelo Estupidis insegurus lusitanus, conseguindo até que o mesmo exemplar desta sub-espécie seja por si capturado mais que uma vez. Se não conseguir detectar um Estupidis, o Trafullis não se faz rogado em perseguir qualquer Lusitanus simplex, ou mesmo Estrangeirus incautus - é a globalização! São também mencionados casos esporádicos em que o Trafullis levou a melhor sobre Prevenidus inteligentiis lusitanus, mas não existe nenhum relato certificado, o que decerto também se prenderá com a exiguidade - ou natural discrição, quiçá - de exemplares desta família disponíveis para estudo e entrevista.

E agora, pequenitos, perguntaides vós a titi Izzie, como, como posso eu distinguir os Trafullis piratus lusitanus, evitando cair em suas sedentas garras? Ah, amiguinhos! Pudesse eu sossegar vossos inquietos espíritos! Atentai: o Trafullis não é portador de qualquer sinal distintivo, o Trafullis é ser mimético, que caminha e vive entre nós, e até logra dar aos que o rodeiam a sensação de que é pessoa séria e interessada, honesto e de primorosa civilidade, qualidades que não se cansa de apregoar como suas. Só quando encurralados, num beco escuro, o distinguireis pelo esgar demoníaco, e então será tarde de mais! Existem relatos de existirem alguns exemplares de Lusitanus simplex dotados de um poderoso olfacto que os permite distinguir dos demais; mas temo tratar-se de pura mitologia.

13 comentários:

Alegre Casinha disse...

Sempre a aprender com a Cartilha da Titi Izzie!

Paulo Abreu e Lima disse...

Titi Izzie, é verdade que o Trafullis vive em corja? E os Estrangeirus Troikus não ameaçam a sua subrevivência?


(Palminhas pra prossora...! Bué bom)

Filipa B disse...

Porque te lembrasteS tu dessa espécie? FosteS vítima? Espero que não, pá!

Izzie disse...

Alegre Casinha, a tomar notas, que no fim do período há teste :D

Paulo, depende, ele há exemplares mais gregários, mas a maioria prefere actuar sozinha, podendo usar a ajuda deste ou do outro para os seus fins. O Estrangeirus Troikus acabará, talvez, com a actividade de alguns, mas é uma subespécie com elevada capacidade de adaptação ;P

Filipa, esta que aqui escreve pensa que hoje avistou um! Mas ao primeiro olhar de suspeita assegurou-me que era pessoa muito, muito séria. A ver vamos ;P

a.i. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
a.i. disse...

(escrevi cheio de gralhas e tive vergonha)
Privaste com um desses trafullis na fila para o táxi?

Izzie disse...

Não, foi no xervixo, vê lá o que eu tenho de aturar. Avisei que não sou estupidis incautus, espero que tenha feito efeito.

a.i. disse...

ah, e eu que pensava que que isto era uma espécie de introito para a novela do relvasgate, da autoria da gata cristina (era assim eu teu pseudónimo de escritora de romances policiais?)

Vic disse...

Com os tempos que correm, não é para admirar que essa espécie se multiplique :)

Izzie disse...

a.i., não, ainda não é desta que me torno a Gata Cristina tuga. Acho que em termos de mistérios, crimes e homicídios a realidade ainda leva a palma à ficção, já não há nada para inventar.

Vic, é muito difícil quantificar a população de Trafulis, porque se misturam muito bem, mimetizando o Lusitanus simplex dominante. Mas acredito que são muitos, e procriam por divisão celular ;)

RBM disse...

Uma vez na bola assisti a um trafullis em cena com um estrangeirus incautus. Então a senhora pediu ao senhor dos gelados dois magnuns e esticou-se para entregar uma nota de dez euros para pagar. o senhor recebe a nota e faz um sinal com a mão como quem diz "está certo, deixe estar".

Izzie disse...

RBM, levo muito a mal enganarem estrangeiros. Tadinhos, a nossa fonte de riqueza, matem a galinha dos ovos de ouro! Quando passo no Chiado tenho sempre vontade de ir distribuir folhetos na esplanada da brasileira com o preçário real.

a.i. disse...

haha! uma boa partida (oh que isto soa tão nhónhó) era sentares-te na esplanada e falares como um desses estrangeirus incautus, ou seja em istrangeiro, e ódepois quando eles apresentassem a conta, tcharan! dizias que eras tuga e que sabes muito bem que eles estavam a usar do truque do trafullis, mas que tu não te deixas trafulhar não senhores.