Quinta-feira, 19 de Abril de 2012

Valar Morghulis*

Li ontem uma reportagem na Visão que foi como um raio de luz, uma epifania, uma revelação. Versava tal reportagem sobre as duas instituições de ensino superior que maior empregabilidade têm, a saber, a nova e a católica, ambas na área de economia e finanças. Como sou uma gaja pré-Bolonha não percebi muito bem se se tratava de licenciaturas, masters ou mestrados, mas era uma coisa muito posh, muito à frente, e que garante emprego bão na banca, mercados financeiros e tal, ou seja, é passaporte para uma carreira de sucesso, fatinho completo dia sim dia sim, poucas horas de sono, rebeubéu pardais ao ninho.

Mas falava eu das minhas revelações, e o blog é meu e ao menos aqui o que interessa é moi, pelo que avancemos a falar de me. A primeira de todas é que de facto eu sou uma mulher da renascença (período histórico e não estação de rádio): uma antiguidade que já não existe e já não se usa. A rapaziada que frequenta tais cursos é, a avaliar pelos exemplos, rapaziada com ar muito lavadinho e composto, altamente motivada, habituada a dispor do seu tempo entre estudos, desporto, voluntariado. Parece que aquelas instituições de ensino valorizam este tipo de coisas, a começar pela cena do "altamente motivado", mas também actividades extra-curriculares como desporto e voluntariado que, pelos vistos, demonstram espírito competitivo e de entrega, capacidade de trabalhar em equipa e motivação para resultados, e capacidade de gestão do tempo por várias actividades. E aqui eu, do alto dos meus 40 anos, senti-me velha, muito velha. É que quando eu era chavala achava-me altamente motivada, mas nada neste sentido. Era altamente motivada a ter boas notas, sim senhora, mas principalmente a viver muito e intensamente, a arrebanhar cada gotinha de tudo o que me interessava, e era muito. Era menina para achar que uma boa gestão do meu tempo consistia em ficar a acabar aquele livro fascinante até às cinco da matina, e baldar-me à primeira aula do dia na faculdade, que se lixe. Passei muito do meu tempo de adolescente a polir esquinas, a jogar conversa fora em cafés, a mudar o mundo em debates atrás do pavilhão. No 11º ano, quando a stora de filosofia me sugeriu fazer o último teste facultativo de melhoria, no meu caso para subir a nota para 18, respondi-lhe que não valia o esforço e tempo que perderia a estudar, pois o que contava era a média do 10º e 11º, e essa seria sempre 17. E acho que isto demonstra a minha orientação para os resultados, a sério. Nunca gostei de desporto, preferia ler e desenhar. Sou e era uma individualista, com pouca apetência e competência social, apesar de saber manter uma conversa educada e ser capaz de conciliar interesses, mas só se for mesmo preciso (e é, muitas vezes), e na medida em que é preciso. Cansa-me, pá. As pessoas cansam-me. O local de trabalho não é, definitivamente, o meu poiso de eleição; não ando aqui para fazer amigos, e a prioridade é fazer as coisas bem feitas, que é, mas aproveitar o resto que me interessa, e é muito. Ou seja, neste actual modelo social nunca me safaria. Se hoje tivesse vinte e poucos seria uma curiosidade, uma fulana castiça, mas nunca destinada a uma carreira de sucesso, ao menos na forma como esta é definida actualmente.

A segunda revelação vem na sequência da primeira: não me chateia nada ser o que sou. Ao ler ali a vidinha de rapaziada de vinte e poucos, geniozinhos da alta finança com carreiras de sucesso na city londrina, que dormem cinco horas por noite e trabalham às dezasseis horas de cada vez, que um dia, com a minha idade deverão ganhar o que eu nem sonho, não me chateia nada ser o que sou. Não lhes invejo nem um segundo a vida que levam, nem os benefícios que recolhem da mesma. Porque, para mim, o que vale, é o que ao fim do dia de trabalho se leva para casa. O que se faz depois. O que se faz para além de. O que conta é que um dia, à beira da morte, possa pensar "eia, fiz tanta coisa fixe", e não o tempo que passei no trabalhinho, a ser um modelo de sei lá bem o quê. Nesse dia quero pensar nas pessoas que amei e que me lembrem pelo que sou e não pelo que fiz ou pela carreira que tive. Não quero um epitáfio de mulher ou profissional de sucesso (às tantas falecida de avc ou ataque cardíaco nos 50), mas uma festa, que batam em latas como dizia o poeta, que possam dizer "esta gaja gozou-a bem, comeu, leu, viu filmes e visitou outros países, amou, divertiu-se, anhou." E foi bom, e gostou. Para mim, chega. E é muito.

*googlem

31 comentários:

Espiral disse...

Percebo-te.

Teno eu 26 anos acredito que estou algures no meio, a saber:

Faço voluntariado e desporto e trabalho um bom bocado a mais do que as 8 horas supostas e nesse aspecto parecida com o pessoal desta geração um bocadinho mais nova que eu (mas não tão talentosa e fantástica lol).

Ao mesmo tempo adoro ler tudo o que me quer na gana(vou nos 36 livros este ano), escrevo, baldava-me às aulas na faculdade para ficar a jogar à sueca e também ia Às festas todas e estudar era de véspera ou de antevespera porque de resto tinha mais que fazer, faço teatro amador e vou picando um ou outro curso ou workshop de áreas que gosto e que têm tudo ou nada a ver com o que faço.

Tirei o curso que queria (psicologia) e não o que as minhas notas ditavam (farmácia ou enfermagem; para medicina tinha que tirar mais dois valores a quimica no exame oh) e trabalho numa área que não parecendo compativel com a mnha formação, é-o de todo =)

Ah e adoro comer bue, ver filmes, e visitar países, bem vou visitando alguns que ainda não há euros para tudo o que gostava.

Um beijo grande de uma companheira de renascença =)

ana disse...

Concordo! Eu sou dessas áreas manhosas - economia - e não me via a levar esse tipo de vida. Nunca almejei uma carreira irrepreensível porque valorizo muito mais o resto da vida. Gosto de me aplicar em tudo o que faço mas isso significa também aplicar-me na ronha, na diversão, etc., etc.. Como tal, há que gerir tudo num meio termo. Ou mais de meio na parte da diversão e ronha, vá, sendo sincera hehe!

Um beijinho e bom dia :)

a.i. disse...

Mulher da Renascença (hahaha "não da rádio" - esta Izzie lembra-se de cada uma): pensei que ias falar de outra coisa. Eu cá também me considero uma mulher da Renascença. Tinha um amigo no secundário e na faculdade que dizia sempre que se eu tivesse nascido no século XVII (pronto, ok, EU SEI que séc. XVIII já não é renascimento, ókâi?) era a mais cobiçada das donzelas, com a minha pele naturalmente rosada e formas voluptuosas. Mas também gostei desta perspectiva de mulher da Renascença - havias tu de ir dar umas sessões de coaching a estes meninos dos fatinhos. Mas sinceramente duvido que fizesse efeito, que aquilo são bichos já com muita formatação, muita lavagem ao cérebro em cima.

Anna Blue disse...

Mulher, um like do tamanho do mundo! Subscrevo na íntegra. Eu também nunca almejei ser uma mulher de carreira. Acabei com média de 18, poderia ter escolhido o que me apetecesse e a área de formação que escolhi foi por paixão (paizinho ainda hoje diz que se fosse agora tinha-me obrigado a seguir uma área com saídas profissionais de jeito). Ainda assim durante parte significativa da minha vida cheguei a trabalhar 16 horas por dia. Ia a casa dormir um par de horas apenas. Hoje estou na situação que sabes. Valeu a pena? A parte das 16 horas, não. A parte de ter seguido a área que queria, sim sem dúvida. Hoje tenho a possibilidade de a exercer às vezes ao fim de semana e, caramba, sou tão feliz quando o faço. O que ganho mal dá para o gasóleo mas a alma fica como nova.

(gostei muito deste texto porque me identifico com ele a 100%)

Izzie disse...

Espiral, olha que não te menosprezes, é bem mais activa e pro-activa que eu :D sou tão calona, jasus.

Ana, mano também é de economia, e há uma grande pressão para ingressar na banca ou finanças, ser DOUTOR com maiúsculas, chefe, CEO ou lá o que é. Mas ele seguiu outro caminho. Menos um AVC :D

a.i., também sou uma mulher da renascença nesse sentido, pá. Roliça, vá, robusta. Coaching é uma das modernices em que não acredito, 'tás a ver? Acho uma treta tão grande como a cena dos cursos motivacionais e o Segredo e assim. Paulo Coelho para profissionais, pfff.

Anna Blue, não sei quem o disse porque li a citação e não decorei, mas alguém disse que no dia da sua morte ninguém deseja ter passado mais tempo a trabalhar. Isto sim, é uma revelação. E a ti desejo muita sortinha, que o que muito falta é dar valor às pessoas motivadas e felizes, ora bem.

Espiral disse...

Izzie,

Coaching é uma área muito interessante mas se aplicada no sentido academico da coisa (dei coaching a psicologia e é muito giro) e não no sentido "auto ajuda" de que é falado pro aí. Qualquer gato pingado faz coaching e nem sabe bem o que é =P

(e olha que eu odeio o segredo e tretas assim... mas olha dá uma espreita ao "Stambling on hapiness; é de um psicologo fantástico e foi o livro do ano em 2009 pela Science) - sim, eu defendo muito a minha dama (e odeio o que fazem dela...) =)

a.i. disse...

Essa do coaching ouvia-a eu ontem da boca de uma menina de fatinho de uma empresa de Head hunting (hã??? sim, eu apesar de empregada continuo a ir a entrevistas de emprego, de vez em quando) - o que eu adoro ficar ali a ouvir durante uns dez minutos o discurso ensaiado destas meninas de RH, tadinhas.

Borboleta disse...

Um amigo dizia-me, outro dia, quando eu disse que era eu que mais sabia acerca das minhas últimas funções: "o cemitério está cheio de insubstituíveis". Comecei a escrever um comentário enorme a dissertar sobre o que aqui escreves e os problemas que enfrenta esta gente que tem de lutar por manter um posto de trabalho nas empresas e economias competitivas da actualidade (ainda por cima em crise) quando me lembrei disto e, a propósito do título do post é mesmo isso: para quê dar um litro quando, por um lado, todos acabamos no mesmo sítio (um em pó mais cedo, mas todos vamos para o mesmo sítio); e, por outro lado, de um dia para o outro podem vir dizer que nos dispensam por esta ou aquela razão e independentemente do litro dado todos os dias (que foi o que aconteceu a esse meu amigo).

trollofthenorth disse...

Valar Dohaeris, Izzie.

Eu detesto o que faço, mas sou profissional e faço-o bem. Já me disseram n vezes que isso não chega.


(Logo espero ter o George a autografar-me os volumes que ainda não têm autógrafo dele) :)

Prezado disse...

ah, identifico-me com isto, a preguiça e eu...
Eu infelizmente não consigo arrebanhar-me com os outros o suficiente para ter uma "carreira". Já vou tarde. Estou à rasca. Mas também não trocava de lugar com ninguém - salvo um director financeiro que ganhe bem e coce os tomates os dia todo e passe o tempo a viajar ou a desenhar ( se souberem de alguma vaga, aceito ) - porque essa conversa da carreira produz boas contas no banco mas muita infelicidade. Been there, done that, mesmo que contrariado.
Agora que já vi que mesmo que trabalhe bem - que é o caso - nunca vai chegar porque não tenho talento para ser yes-man, carneiro, invertebrado e sendo um Ghandi de paciência monumental a recompensa no fim é igual à dos que se marimbam... Marimbo-me.

D.S. disse...

Eu sou um claro membro dessa geração. Comecei a sentir o peso da competição altamente qualificada num mercado de trabalho relutante em empregar gente jovem ainda antes de acabar os estudos e estou agora naquela fase do "acabei os estudos mas ainda não entrei num emprego ao qual posso pensar em construir carreira". Estou numa fase merdosa portanto, não só por causa da badalada Crise mas também por ainda não ter bem a noção do que quero para a vida.

Mas fico com pele de galinha com esta ideia do "o esforço não compensa so don't bother" ou "prefiro uma profissão mais mediana e abaixo do meu potencial para poder gozar melhor a vida". Isto porque sou muito jovem, tenho se calhar a visão ainda com tons cor-de-rosa de que o mérito, mais tarde ou mais cedo, é recompensado e de que nos devemos esforçar para atingir o nosso potencial máximo. Se não é desperdício, sinto eu.

Acho que as pessoas de fatinho e bem lavadinhas são precisas, algumas - pelo menos as que descreveste que estão nesses cursos e desdobram-se em mil e uma coisas - têm mérito e não devem ser olhadas com desdém por estarem a esforçar-se para entrar no mundo tão competitivo que é o das finanças e afins. Se um dia vão descobrir que isso não as preenche então é lá com elas.

Enfim, eu digo isto tudo a coçar a cabeça porque a dialética comigo mesma do "quem sou, parao onde vou, o que quero da vida" ainda não está de todo resolvida. Achei apenas que o culto do esforço e do atingir as nossas potencialidades devia ser lançado para o debate.

Vic disse...

E eu acrescento: muitos dos que falas no último parãgrafo, quando o Lemman Brothers estoirou, deram um tiro nos miolos. Valeu-lhes de muito trabalharem 16 horas por dia e terem muitos previlégios...

Fuschia disse...

É cliché, mas acho que tem de haver um equilíbrio entre todas as áreas da nossa vida. A parte profissional é importante, mas não é só. Desprezo um bocadinho essa ideia super ambiciosa da vida, até porque acho que pessoas que dedicam a maioria da sua energia ao trabalho andam a fugir de qualquer coisa.

Anna Blue disse...

Fuschia, touché!

bee disse...

izzie, acho que fui um dos exemplos que descreves (obviamente falhado) porque tirei o curso de gestão e sempre fui formatada para essa hipermotivação, para ser capaz de fazer tudo e mais alguma coisa. algures a meio do percurso, comecei a sentir-me uma falhada, por não conseguir tudo o que 'era suposto' (não tenho um emprego na alta finança, por exemplo....) e por querer outras coisas da vida. acho que tem de haver equilíbrio, e que esse equilíbrio nem sempre é fácil. mas retiro muito mais satisfação das outras áreas da minha vida que não a profissional, e isso tem de significar alguma coisa....

Izzie disse...

Espiral, no sentido de ensinar, sim senhora. Mas no sentido que por aí pulula, nhé.

Borboleta, acho que vale a pena dar o litro se isso nos der prazer ou realizar. Mas sacrificar outras coisas se calhar mais importantes, para um dia perceber que nos põem a um canto com toda a facilidade? Nã, nessa não me apanham. Já vi muita coisa acontecer.

Troll, claro que não chega, é preciso vestir a camisola, fazer da empresa família, dar o sangue e a alma! Não recebeste o memo? ;P Valar Dohaeris, sim!

Prezado se eu conhecesse um emprego de director financeiro assim candidatava-me já. Se bem que em muitos casos, por cá, é crisr fama e deitar-se a dormir, há muita gente em cargos cimeiros que não passa de manda-bitaites.

Vic, e outros abotoaram-se com a massinha que passaram anos a gamar e foram gozá-la para outras paragens. Foram anos de putas e vinho verde, muita linha de coca, se acabaram a dar um tiro nos miolos lá sabiam (sou má).

Fuschia, exacto, tem de haver um equilíbrio, e saber até onde se está disposto a ir. Assumir isso, e as consequências. E viver como se bem entende.

bee, não é fácil, não. Também já fui mais fuçanga que sou hoje, já trabalhei horas a fio, dormi pouco (isto numa semana em que o máximo foi 7 horas por noite, para mim é pouco). mas sacrifico até só determinado limite. Também, verdade se diga, tenho o luxo de o poder fazer.

Izzie disse...

D.S., vais levar uma resposta personalizada, que o comentário tem pano para mangas (e o que eu gosto de discussões, no sentido de trocas de ideias). Não desmereço neste tipo de pessoas, são estupidamente inteligentes, com uma capacidade de trabalho que não tenho, e reconheço-o. Aqui entre nós acho um desperdício dedicarem-se à alta finança, que lá terá as suas coisas boas, mas também faz circular e limpar muito dinheiro sujo.Valorizo mais quem se dedique à investigação, ou outro trabalho mais altruísta, mas isso é um preconceito meu.

Acho que sim, nos devemos esforçar, e esse esforço paga, as mais das vezes (conheço demasiadas situações em que não pagou, dai o meu cepticismo parcial). Não nos podemos deitar de papo para o ar e esperar que o sustento caia do céu. Mas não vejo nada de mal em alguém com potencial se contentar com a mediania. Até porque quem deve medir esse potencial e dizer o que quer fazer com ele é o próprio e não os outros, percebes? Não sou exemplo para nada, mas cá vai: já trabalhei e suei muito, sacrifiquei-me bastante, privei-me, não em prol de uma "carreira" mas para conseguir pelo menos o meu objectivo. Consegui, e agora estou num patamar que me satisfaz, onde ganho o que me chega para o tipo de vida de que gosto. Podia ir mais longe, sim. Há quem ache que teria o potencial para tanto (e eu também). Mas quero? Não. Quero continuar a ter brio no que faço, mas não preciso de subir mais patamares, não estou disposta a fazer os sacrifícios inerentes. Nem tenho personalidade para isso: não me apetece focar-me só numa área, gastar horas em que podia ler as aventuras de um povo inventado para estudar a fundo determinado assunto e especializar-me. Não tenho paixão suficiente pelo que faço ou uma só área do saber para isso. Disperso-me, mas isso dá-me prazeres que não teria de outra forma. No fundo, dei à minha vida a mesma resposta que dei à stora de filosofia. Na altura, custou-me mais o ar de desapontamento da stora, porque achava que eu tinha potencial e devia esforçar-me pelo 18, do que a opção que tomei. E gostava que me respeitassem e tentassem entender esta falta de ambição. Se não entenderem, tudo bem: aos 16 anos custava-me desapontar as pessoas, agora custa-me mais não ser quem sou e realizar-me de acordo com as minhas regras.

Andorinha disse...

Izzie, isso é pq sao putos e têm 23 anos e viram mto filme americano. O Manelinho que tá cá em casa pensa taliqualinho, que big executive e tal, isso é que era. Não tem é perninhas tadito, mas tem mta vontade. E qdo lá chegar eu vou achar o máximo, dar-lhe 3 palmadas nas costas e dizer o que disse a mim própria um dia: então e agora quê? És importante pra quê? Pra quem? Pra onde? És um número minha besta! (isto sou eu a falar comigo!) E um dia cais pro lado e estes gajos mamaram tudo e de que é que te adiantou?!
E depois (tipo, dali a 5 dias) recebi uma proposta da minha empresa na Holanda pq eu era a gaja dum ganda cliente e tinha um bom CV. E cá estou eu, a encher o cú de dinheiro (not), a pança de viagens (isso sim que eu morrendo sou defunta caraigo!), a gramar o frio do cú q está nesta terra, a limpar as mijinhas dos meus 3 adorados cães e a ter o privilégio de trabalhar a partir de casa de rabo no sofá e sentir-me recompensada.
A DIFERENÇA está em que, no dia em que vim cá parar e dei com as minhas regalias e mordomias todas (excepto o clima, a comida e a língua, nuuuuum é?) pensei: JÁ TÁ!! Já tá bom!! E não visto mais fatos, foda-se! E não me maquilho e não uso saltos altos!!!
E sinceramente: nao uso fatos, nao me maquilho e nao uso saltos pra parecer uma executiva e uma gaja importante e só nao vou pro cliente de calças de ganga e dois tótós no cabelo, pq além de haver mínimos, com esta bondade que o universo teve em dar-me a eterna juventude facial, o cliente ainda pensava que eu era uma amiga da filha, e era coisa pra ser chato.
Nunca fiz desporto, voluntariado sim mas só fiz a sério depois de estar a trabalhar, e a minha maior motivação sempre foi a TV e um bom livro, mas sim, tb queria ser executiva e viajar muito.
Com a idade apercebi-me q viajar a trabalho é uma ganda bosta (detesto), que nao gosto de andar de fato (tenho sempre frio) e que a maquilhagem nao serve pra me dar um ar mais inteligente ou mais velho. Tb aprendi que gosto do meu trabalho bem feito e continuo a trabalhar horas a mais e que se bem me conheço vou continuar a fazê-lo, mas que ser uma big executive da big apple chutada a vicodin e afins nao é o meu sonho. Mto embora ainda hj desse o cuzinho pra viver um aninho num loft em NY.
Escrevi comó carago e o que eu queria dizer é mesmo simples: TOO MUCH TV!!! Pra bué da povo!!! É mta série americana na corneta oh pa!
Btw, ja ando a ver o game of thrones outra vez, oh pa, aquilo tá cada vez melhor caramba!

Izzie disse...

Andorinha, talvez seja muito filme, muito filme... Também tive esses sonhos de ser executiva e viajar muito, mas depois cresci. A vida é mais que isso. A minha, pelo menos.

a.i. disse...

fiz um hyperlink para ti Arte da Preguiça, espero que não te importes por te usar na minha casota.

diasdetelha disse...

Maridinho é da gestão e teve um trabalho em que passou 3 anos a viajar muito. Mas mesmo mesmo muito. Giro? Se gostarem de conhecer aeroportos, hotéis e escritórios estrangeiros até pode ser. Foi interessante pela parte do desafio profissional, durante uns tempos. Depois valores mais altos se alevantaram (graças a zeus) e mudou de emprego. Ganha menos, mas não trabalha 14h por dia, não dorme fora de casa. A qualidade de vida é coisa que tem um preço e acredito que há muita gente cuja ambição/orgulho/whatever não deixam pagar. Ele, felizmente, pagou. Porque, como ele sempre me disse, "it's lonely at the top" (também não sei quem disse).

Andorinha disse...

Izzie, basicamente é isso. Eu tive esse sonho e cresci porque percebi que a minha vida era mto mais que isso. A que propósito teria eu 3 cães se assim não pensasse?
Curiosamente, e pq a vida dá mtas voltas, aquele que era o "sonho de menina TV" concretiza-se actualmente e posso-te dizer que é com o maior dos fretes que vou viajar a trabalho nas próximas semanas. Como disse a diasdetelha, é conhecer aeroportos e hoteis e 14 horas no pêlo.
A questão é que aos 21/23 ainda não tens essa percepção de que existem coisas bem melhores na vida. Tb não se sabe que se está (muito) sozinho lá no cimo. Tb não se sabe que o pico da nossa vida pode ser ir um mês pra África fazer voluntariado a dormir numa cabana sem água :)
Resumindo, dos teus 40, dos meus 35 as coisas vêem-se de forma muito diferente, mas eu tenho perfeita noção (e ainda bem) que o esforço dos meus 25 me foi recompensado. Tb me vale ser multi-tasking e ter feito outras coisas à parte que me fizeram muito feliz e esquecer as 14 horas de trabalho. Pra tudo há um tempo na vida :)

D.S. disse...

Percebo o que me dizes, Izzie. E é muito bom ouvir uma outra perspetiva da coisa (até porque, como disse, ainda não estou muito certa da minha).

Ainda não sei o que gostava de fazer profissionalmente (sei a área, já não é nada mau), e falta-me ainda experimentar trabalhos para começar a por de lado o que definitivamente não quero, até porque acho mais fácil ir por aí. Sem dúvida que quero uma família, sem dúvida que quero poder viajar e conhecer muito, e sem dúvida que quero ter tempo para ler, passear o cão, escrever. Mas gostava muito de ter uma profissão que me enchesse as medidas, que me fizesse acordar de manhã bem-disposta por ir para o trabalho, que a fizesse de bom gosto e mesmo que não me pagassem. No fundo, que contribuísse para algo em que acredito. Mas lá está, parece que isto é tudo muito subjetivo e que o que enche as medidas a um não é definitivamente o que enche as medidas a outro. Mas acredito que a ambição é saudável e que não tem mal nenhum ambicionar o topo (seja ele qual for).

Anónimo disse...

Este texto é um bocado maniqueísta, os miúdos não são assim tão motivados, nem são assim tão mono-temáticos, digamos; e, especialmente, não são assim todos, nem sequer a maioria. Agora se falares em tendências é diferente. E sim, é verdade, há esta tendência, mas se o discurso da sociedade vai todo no sentido da eficiência, do mérito, da produtividade o que esperas que os miúdos valorizem ou mostram que valorizam (mesmo que interiormente não o façam)?
Esta merda não é fácil também para eles.
Luís

Me disse...

Não vou para aqui dissertar um testamento gigante porque sinceramente não estou para aí virada.

Quero só dizer que este é provavelmente o teu texto em que mais me revi.

Tu saberás que a vida é para ser vivida, pela idade que tens e por outras situações da tua vida. Eu, cá pela educação que tive e pelas infelizes vivências que me sucederam, tenho a certeza de que um dia quando morrer, quero é levar comigo os livros, as viagens, as conversas, as jantaradas, os momentos de ternura e amor com os meus. O trabalho? O trabalho só me serve para poder continuar a fazer tudo isso sem chatices financeiras.

Bom fim-de-semana!

Izzie disse...

Mariana, very lonely.

Izzie disse...

Luís, pois não é fácil para eles, principalmente os que não se identificam e que devem sofrer imenso com a pressão.

Me, felizmente nunca tive um lembrete tão forte como o teu, mas sim, desta vida nada se leva a não ser o que já se gozou.

CCF disse...

Esses miúdos não são de certeza os meus alunos :) Os meus fazem copy paste da Internet e está o trabalho feito, não gastam um tostão na compra de um livro e protestam quando os quero levar a uma visita de estudo porque os transportes são caros...mas à noite gastam que se farta em cerveja! De facto há universidades para todos os gostos e feitios! E jovens muito diferentes também...
~CC~

sem-se-ver disse...

que estranho. pensava que era o tecnico, que tem taxas de empregabilidade - e ainda durante o ultimo ano do curso - acima dos 90%!

sem-se-ver disse...

«Mulher da Renascença (hahaha "não da rádio" - esta Izzie lembra-se de cada uma)»

pensei exactamente o mesmo :))

sem-se-ver disse...

(foi um comentário lateral, desculpa)