Quinta-feira, 12 de Abril de 2012

Londres 2012 - The Golden Age of Grotesque

Antes de mais, dois disclaimers: a) sim, o título é gamado do título de uma canção e álbum de Marilyn Manson, b) não sou entendida em arte contemporânea, aliás, sou uma furiosa céptica, e isto não passa de uma opinião muito minha.

Passado este intróito, vamos ao que interessa, ou não, conforme o ponto de vista, e o assunto é Damien Hirst, que tem na Tate Modern uma exposição muito bem recheadinha. Comecei pelo rés-do-chão, sala da turbina, e a sua mui afamada caveira coberta de brilhantes. O título da obra pareceu-me muito adequado: For the Love of God é a exclamação que me ocorreu, de facto. Já agora, os dentinhos são do indivíduo que, muito provavelmente sem saber, porque já morreu há um ror de anos, forneceu a caveirinha que serviu de molde. Tadinho, nem pode valer-se da fama póstuma.


Entrados na exposição propriamente dita, muito concorrida ou não fosse este senhor um dos mais badalados, adorados, contestados artistas contemporâneos, o mais rico e vivo, começa-se de forma suave com obras que seguem uma linha já muito vista e esgotada (bocejo): objectos do quotidiano pintados e expostos de uma forma que é supostamente simbólica de qualquer coisa que me escapa, geometrias, os famosos quadros de bolinhas que não envergonhariam qualquer decorador de interiores se fossem comercializados como papel de parede. Para os mais ignorantes sobre o que se segue, já há numa parede uma fotografia que poderá servir como aviso: o artista em novo, de expressão grotescamente esfusiante, posando ao lado de uma cabeça humana.

E se o pior vem depois. Eu já ía preparada, que li uma review no jornal, mas ainda assim, ainda assim. Digamos que para mesmo os leigos fica patente que a linha condutora do trabalho de Hirst segue uma clara obsessão com a morte, ou não fossem verdadeiras naturezas mortas o teor da exposição. Verdade seja dita, o homem tem um sentido de humor negro e um jeito para arranjar títulos que me agradam mais agora, à distância, e que não tenho diante dos olhos tanto bicho conservado em tinas de formol. Não me vomitei toda, mas que hiperventilei, hiperventilei. Dispensei passar por entre os recipientes onde se exibiam Mother and Child Divided (vaca e vitelo, em formol, cortadinhos ao meio), evitei fitar de frente The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living (o famoso tubarão), e não entrei na fila para In and Out of Love (a salinha de borboletas vivas, com entrada controlada), porque esta ficava mesmo em frente a A Thousand Years, a peça que evitei a todo o custo encarar, que ao meio dia o estômago não estava preparado para aquele nível de macabro e, segundo mate, a peça já cheirava (fomos dois dias depois da abertura, nem quero imaginar quem lá vá daqui a um mês ou dois).

Seguem-se obras tudo nada diferentes, e felizmente já não compostas por materiais (ahém) perecíveis. Tenho de admitir que gostei das vitrines de farmácias (a Pharmacy propriamente dita já conhecia, vi-a na Tate Modern já há uns anos, acho que faz parte da permanente), das vitrines de comprimidinhos, um conjunto chamado Lullaby (sweet, gostei), a vitrine de beatas de cigarro (The Abyss, o homem é bom com títulos, de facto), e as vitrines de zircónias (Memories of/Moments with You, outro título genial).



Passa-se a uma sala mais bonita, o coração suspira de alívio, isto até percebermos que aquelas maravilhosas composições a lembrar vitrais foram feitas com colagem de asas de borboletas. sim, the real thing, não é papelinho colorido. No fim, uma atroz, sádica promessa de redenção: The Anatomy of an Angel, e a pomba branca suspensa em formol a despedir-nos, The Incomplete Truth.



Para quem esteja interessado, seja pouco impressionável, ou tenha um estômago forte, podem consultar toda a exposição aqui. Não é o mesmo que o cara a cara, mas ao menos não ficam como eu fiquei.

Confesso que saí de lá balbuciando várias e repetidas vezes a palavra crueldade. Sim, aquilo é de uma crueldade atroz. Chocou-me a insensibilidade, a frieza, a vulgaridade da morte, a utilização da vida finda para o propósito de fazer arte. Seja lá o que isso seja. Mas, se é assim tão mau, tão desprovido de sentido e valor, porque é que o senhor Hirst me provocou uma reacção tão forte, uma lembrança tão vívida, que ainda hoje perdura?, porque dou comigo a meditar no sentido de tudo aquilo, de como me faz relacionar com momentos da minha vida, com a minha finitude? Diabos o carreguem. Really.

(e há Picasso na Tate Britain, bem bonito, e diz que ao tempo dele as pessoas também o etiquetaram com epítetos jeitosos)

19 comentários:

a.i. disse...

bom, só li o primeiro parágrafo (gosto de saborear bem os teus textos e portanto vou deixar a leitura mais aprofundida para outro momento com mais tempo) mas queria apenas dizer: vi essa caveira de diamantes em 2008 em amesterdão e achei impressionante também. E até me lembro de ter lido algures que esse título For the love of God tem algo a ver com a exclamação de espanto que a mãe dele fez quando soube dessa obra: p'leo amor de deus, uma caveira coberta de diamantes??

Fuschia disse...

Não conheço muito do trabalho dele, mas o uso de animais mortos choca-me sempre um bocadinho.

Izzie disse...

a.i., pois num vídeo que estava lá a passar explicava-se que era inspirado no hábito mexicano de pintar caveiras coloridas, uma espécie de homenagem, mas acho que essa versão é perfeitamente aceitável :D pelo menos foi o que me ocorreu.

Fuschia, idem aspas. Fez-me uma confusão do caneco. Mas a obra dele anda toda ali a rondar a morte e mortalidade, os vícios, o luxo (como ilusão, talvez, que no fim somos todos pasto para larvas). Perplexa, fiquei perplexa, e nisso faço vénia ao senhor, nunca nenhum contemporâneo o conseguiu, antes.

Tolan disse...

O Warhol já fazia isso nos anos 60, basta ver a série de fotografias e pinturas dele sobre a morte (corpos estropiados, acidentes de carro, etc.). É só googlar Death and Disaster, Warhol (cuidado, algumas são chocantes). Ele era obcecado pela morte e acho que no campo do "choque" todos foram um bocado cópia dele (e em quase todo o resto). Mas há um lado estético no Hirst e sem isso a obra dele não teria valor. Por exemplo, acho a caveira mesmo bonita. Podia ser só uma caveira com diamentes, mas aquela caveira é bonita. Como a pomba suspensa no formol ou o tubarão ou a vaquinha e o vitelo. Há ali uma coerência global naquelas coisas todas, os próprios títulos, como dizes, ajudam. Cria um desconforto a sério.

S* disse...

Pois eu fiquei chocada apenas com a tua descrição... não consigo achar isso arte. Que horror.

Izzie disse...

Tolan, desconhecia essa faceta do Warhol. Confesso que gostei da parede das latinhas de sopa no MoMA, mas corpos estropiados é muito fora da minha zona de conforto. Iaca.. e medo. O Hirt tem uma estética muito própria, isso tem, e a caveira acaba por ser tão obscena, às tantas, como pares de sapatos de 5000 euros, e que se vendem :D Mas muito desconfortável.

S*, é fortezinho, isso é.

SS disse...

o que eu gosto même même na arte moderna e cantemporânia são as instalações! Ná nada como uma boa instalação

Izzie disse...

Olha que já vi instalações que era amarrar o artista lá no meio e atirar-lhe ovos podres :D Mas só a palavra, hein? Dá-me nervos.

SS disse...

muitos nervos e muita vontade de conversar horas a fio com o artista se é que me entendes...

Alegre Casinha disse...

Uma vez - enganada - fui ver uma instalação em Oeiras que se resumia ao artista entre 2 paredes de pladur a gritar "Para onde vou? Para onde vou? Para onde vou? Para onde vou?" E gritava, gritava, gritava. Dez minutos daquilo (tinhamos de estar sentadinhos para apreciar o enorme talento do moço) e um amigo sussurou-me ao ouvido "E se eu gritar: Vai para o #"$#"$##$$#!"
Seguiu-se aquilo a que o Seinfeld define como espiral do riso e um convite a sair do local.

SS disse...

ahahahaha, mas essa é um excelente instalação! qualquer coisa que faça rir assim merece a nossa atenção!

Alegre Casinha disse...

é verdade, só pela risota que me deixou em lágrimas mereceu os dez minutos que passei a ouvi-lo gritar as suas angustias existenciais. :)

Izzie disse...

Acho mal não terem ido comprar um mapinha ao pobre do artista. mas mandá-lo a essa parte era o que me apeteceria, pô.

Borboleta disse...

Ai o que já me ri com isto. Obrigada Alegre Casinha :-D

AEnima disse...

Eu vinha ca dizer algo, mas o Tolan ja se adiantou. O fascinio com a morte e' muito comum na arte... desde os Egipcios e todo aquele processo de mumificacao de pessoas/animais, etc e conservacao dos orgaos em jarros tambem... As mumias estao agora muito em voga no mundo da arte: http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-1291198/Mummy-10-month-old-baby-goes-worlds-biggest-mummy-exhibition.html... ate 'a nossa propria capela dos ossos em Evora, ne? Essa nao te arrepia tb?

Um dos peixes do Hirst foi vendido ainda a semana passada por £22500 na TV. A instalacao da vaca tb ja nao e' recente... ja chocou outras pessoas antes :) Claro que nao e' a mesma cabeca! Eu tenho que admitir que gosto do homem. Pronto, nojento... mas gosto. Cruel para mim e' ver os programas do Attenborough no Discovery e nao saber por quem torcer... se pelo coitadinho do bambi tao lindo que estava tao em paz a beber agua se pela coitadinha da leoa com 4 crias para alimentar.

AEnima disse...

Ah, e nem a proposito, ontem foi noite especial aqui num cinema alternativo sobre o Pier Paolo Pasolini... e antes de passaram a "masterpiece" dele - solo ou os 120 dias de sodoma, passadam um filme do corpo dele nos 9 minutos depois de ter sido assassinado... it's fitting. Os meu amigos sao todos uns caguinchas e ninguem quis vir comigo ao cinema... por isso la fiquei eu sem ver nada dele outra vez :(

sem-se-ver disse...

aenima,
e pq nao ficou sozinha a ver? é a melhor maneira de usufruir dos filmes... :)

Izzie disse...

Aenima, mas este tipo usa animais mortos, pá! Numa espécie de suspensão, o formol, uma aparência de vida. Bom, no caso da cabeça de vaca, não :D e sim, suponho que a mudem de vez em quando, ou as larvas não a faziam chegar a outubro ;)
Pasolini não é a minha praia, mas mate gaba-o muito.

Maria Bê disse...

Izzie,
Sorry pelo delay. E a exposição Bodies (http://www.bodiestheexhibition.com/), já viste? Eu sim, em Lisboa, num dia de 40º à sombra. Fui "obrigada" pela minha mãe, que achou que era de ver. Eu nunca me consegui abstrair de que aquilo, aquelas obras de arte, eram pessoas (andei doente uns dias). Já animaizinhos não me custa tanto...
Um sorriso meio amarelo!