Tenho uma alergia, uma urticária, uma brotoeja muito especial guardada para esta época de festas. Fico assim a modos que fenhé, e fujo a todo o custo aos clichés porque sim, pronto, é mau feitio, à falta de melhor explicação. E balanços não é comigo, que o meu ouvido interno não escapa à geral miséria genética que herdei e sou pessoa com fraco equilíbrio (não, não é em sentido figurado, mas 'tá bem, pode ser).
Mas pronto, agora venho quebrar a minha tradição, que é a de não abraçar os tradicionais clichés festivos; e como não abraço eu o cliché de fazer um balanço? Fazendo um não balanço. Ora eu lembro-me lá qual foi o melhor filme que vi este ano, o melhor livro que li, nem me lembro o que almocei anteontem. Não que seja mais importante (podia ser), mas a título de exemplo. E cenas más, bof, há-as todos os anos, mas se a falta de memória tem coisa boa é a de não facilitar o armazenamento de rancores. Muita cangalhada, já não há espaço. Um dia arrumo. Not.
A única coisa que sei é o que fui e que se calhar depois de amanhã continuo a ser. Sei mais ou menos o que gostava de mudar apesar de não saber bem como, e dispenso tretas do muda se não estás bem, isso é muito fixe para quem vem equipado de nascença com gps, e eu nem um mapa de estradas razoavelzinho. O que muitas vezes tenho a certeza é que andará por aí alguém a viver a minha outra vida, aquela que eu não vivi quando decidi virar à esquerda em vez de seguir em frente. Também sei o que já muito dificilmente deixarei de ser, a tal sarnicosa implicante pica-chouriços (palavras de mamãe. there's unconditional love for you), descarada e com pavio curtinho, sarcástica, sardónica, irónica, demasiado intensa (mamãe, again), com um sentido de humor demasiado negro e cruel (mamãe em alta, hoje), impetuosa, pouco realista, cabeça no ar, asneirenta (omito carroceira que já falei muito de mamãe), impaciente, bruta, niquenta, e estas são só as qualidades. Também sei que sou (e gostava de ser um bocadinho menos) bichinho do mato, frequentemente paralisada por timidez e sentimento total inadequação social, ansiosa, tensa, acometida de tristezas súbitas e profundas sem razão aparente, arredia, panicada, desorganizada e por vezes caótica, dada a turbilhões e inquietações, all over the place, enfim, um desastre que já aconteceu, daqueles a pedir inem aos molhos, bombeiros, equipamento de desencarceramento e muita serradura espalhada. Ai que exagero, exagero não, muita experiência, são quarenta anos a disfarçar, a assobiar para o alto e andando de mãos nos bolsos, aos pulinhos, ou julgam que deixo que qualquer um repare?
E pronto, resumidamente sou assim, e muito provavelmente continuo a ser na segunda; talvez pareça um bocadinho menos que sempre é mais um fim-de-semana de permeio a aprender a controlar a coisa. A vida continua, não há uma cancela entre o amanhã e o depois de amanhã; espera-se que um nadinha melhor, uma ou outra pata na poça mas haja um par de sapatos secos para trocar. Nos entretantos cá se vai andando, sempre com a sensação de que em muito tenho eu resmas de sorte, a maior delas é olhar para o lado e ver alguém que no meio deste quadro de miséria até me acha graça, consegue fazer melhores piadas sobre mim que eu mesma (he's a keeper), e até diz coisas boas sobre mim e assim. E mesmo depois de trocar de lentes insiste que não, eu não estou nada gorda (a keeper, I told ya).
Booooom, dito isto, até ao mau feitio da próxima semana, vocês não sei mas eu cá estarei. Isto é, se os dois automobilistas que me tentaram abalroar na véspera de Natal não decidirem acabar o trabalho (bêbados do c@r@lho) (sim, há uma conspiração global para acabar comigo, e corajosamente eu persisto). E façam o favor de entrar bem no próximo ano, siiiim? Ena, que entusiasmo. Eu sei, sou de uma alegria contagiante.













