Já não me lembro há quanto tempo isto foi, mas foi há muito; não no tempo em que os animais falavam, mas no tempo do escudo e em que ainda nem se falava em euro (uns vinte anos, mais coisa, menos coisa - sim, sou cota). Íamos em grupo à Feira do Livro, mano e eu; em casa, mamãe deu a cada um uma nota de cinco contos (ou duas de dois, não me recordo bem) para comprarmos o que nos apetecesse. Era uma quantia jeitosa, hoje uns 20-25 euros que para pouco dão. Ora lá estávamos todos, demos uma primeira volta para picar as novidades, promoções, livros do dia. Finda esta, mano e eu entramos nas habituais negociações, de compro este que tu também queres ler se tu comprares aquele que também me interessa, e passamos à segunda volta para as compras. Nisto um amigo pergunta-nos quanto temos para gastar, e revelamos, na boa, a pequena fortuna de que mamãe nos fez depositários, com a habitual recomendação de não gastem tudo em porcarias (é mãe, e portanto trabalha em full-time, mesmo quando não pode estar presente). O nosso amigo ficou estupefacto, e disse qualquer coisa como isso é que era bom, o meu pai dar-me tanto dinheiro para livros; ele acha um desperdício gastar dinheiro em livros. Fiquei varadinha das ideias, fiquei. Não punha nem ponho em causa que uma família de classe média, como era o caso, tivesse maiores e melhores prioridades que livros, e neles não gastasse tanto como nós (verdade se diga, a Feira do Livro era o correspondente ao quando o rei faz anos, para nós); mas o que me fazia muita confusão, a pontos de me enregelar por dentro, era alguém achar um desperdício gastar dinheiro em livros, que se tratasse de uma despesa fútil ou inútil, e mais ainda se considerarmos que era gente que vivia muito razoavelmente, tinha carro, televisor a cores e tal, e lá por casa (que não era no subúrbio, como a nossa) ninguém andava mal alimentado ou mal vestido.
Ora quando é este o exemplo que se tem em casa, que conjuga um desprezo pelo livro com um sentimento de desnecessidade pelo que ele traz dentro, como se pode esperar ou pedir mais? Adianto que até há pouco tempo acompanhei esta pessoa, e confirmo que se trata de alguém com horizontes muito limitados, para quem cultura e opinião são adquiridos na televisão, revistas mais leves e um ou outro jornal que lhe calhe ao caminho. Muitas vezes o apanhei em aquilo que eu qualifico como delírios hilariantes, e para ele eram dissertações inteligentíssimas, sobre o mundo, a política, as pessoas e tudo o resto. Mas como se pode esperar ou pedir mais?
Idem aspas para aquelas casas onde o "livro" entrava em colecção, normalmente adquirida em prestações, primorosamente encadernado a pele, autor e título em letrinha doirada: serviam as mais das vezes para compor uma estante, que aliás bem mais bonita ficava que as lá de casa, cheias de livralhada em capa cartonada, folha amarela e lombada já quebrada. Só muito recentemente soube, por me mate, também ele um filho dos subúrbios onde, ao tempo, pontuavam estes clichés, que se vendiam apenas as capas encadernadas, todas coladas, como bibelô para encher espaço. Um naperon, um bambi cromado, uma moldura bonita com a fotografia do casamento dos pais e, por trás, um caixote vazio a aparentar as obras completas de Camilo ou Eça: foi assim passada a infância de muitos, e, capaz de jurar, ainda é.
E depois, ainda há gente que se admira.
Adenda: sobre o assunto do video palerma e a tal falta falta de cultura geral dos jóves, já se falou melhor
aqui e
aqui. Para o que me interessava, esta é apenas uma história de vida, que demonstra que não, no meu tempo não era melhor.