Não tenho nada contra o dinheiro, acho que dá um jeitão tê-lo. Também não tenho nada contra uma pessoa que tenha dinheiro se ocupar a gastá-lo: penso sempre no ensinamento da minha mãezinha, que sabiamente me dizia que os ricos têm de o gastar, senão ficam cada vez mais ricos. Mas confesso que tenho valentes preconceitos quanto à forma como as pessoas gastam o seu dinheiro, e um desprezo assumido por pessoas que têm ou sentem necessidade de mostrar que têm dinheiro e como o gastam.
Começando pela primeira situação, há que esclarecer que é democrática e transversal a todas as classes sociais. Tanto me irrita o pobrezinho ou classe média que gasta em comida processada ou pronta (caneco, hamburgueres congelados? e continhas, sabemos fazer? e batatas de pacote? hein? e salada embalada? a quanto fica a alface, ao quilo? já pensaram nisso? juízo, pá, juízo), como o ricaço que nem se sente gente se não se passear num lata carérrima, ou a tia que se sente mais pessoa por ter merdas grifadas no lombo, porque parte do princípio que nem vale a pena comprar algo dez vezes mais barato, por lhe ser indigno. Ah, o dinheiro é deles, eles têm o direito a gastá-lo no que lhes apetece e gostam! Sem dúvida, por isso não hesito em dizer que é um preconceito meu. E também tenho direito a tê-lo, principalmente quando ouço pobrezinhos e classes médias a queixar-se da conta do supermercado, ai ai, e depois ver que compram cenas perfeitamente disparatadas ou dispensáveis. Ou ricaços cheios dele, e de tralha muita boa ou cara (nem sempre ambos são coincidentes), a queixar-se que as empresas vão mal, ai e os impostos, ai e os ordenados, e ficar com uma ligeira impressão que muitos dos que para eles trabalham ganham uma merdinha ou nem têm contrato.
Quanto à situação dos que fazem gala em mostrar o que gastam e no que gastam, e que portanto têm para gastar, peço desculpinhas pela minha mania, mas não é preconceito, é desprezo perfeitamente justificado. Se calhar é snob da minha parte, mas penso logo que se trata de dinheiro novo: este tem uma tendência estranha para gostar de ir à janela arejar e dizer adeus a quem passa. Novos ricos (ou portadores de cartões de crédito com plafonds muito elásticos), arrivistas, é a etiqueta que colo logo a esta gente. E são. Mais uma vez desculpas, mas são. Como já disse supra, não tenho nada contra o dinheiro; gosto de o ter, não me importava nada de ter mais (mas ganho em trabalho honesto, claro). Dá um jeitão para coisas mais prosaicas e outras nem tanto, que todos temos as nossas manias, ambições, luxos: mas tenho mesmo que falar das minhas malas referindo-as pela respectiva marca? Melhor: tenho mesmo necessidade de falar das minhas malas? Excepção feita àquela de que gosto muito, muito, e porque calhou em conversa? Idem para sapatos, roupa, carros, seja o que for. É má criação esfregar nas caras dos ouvintes (ou, no caso dos blogues, dos leitores) a nossa abastança (real ou imaginada), o quanto temos, nem que seja de forma indirecta, mostrando o quanto compramos. Demonstra falta de senso, de sensibilidade, e é bem revelador do nível de educação de quem fala.
No mesmo saco enfio quem fala de cultura só para debitar o que compra ou leu, ou só para mostrar que tem acesso. Uma coisa é falar-se num livro/filme/série porque nos cativou ou está a agradar, para aconselhar ou partilhar a experiência com quem falamos; outra bem diferente é acenar com a obra completa do Tolstoi só para se fazer passar por hipé-culto. Aliás, quando eu era chavala lembro-me de ter frequentado muita casa que possuia na estante, muito bem conservadas porque nunca folheadas, colecções completas de Eça de Queiroz ou Camilo Castelo Branco, encadernadas a pele; e lembro também de se poder arranjar só as lombadas para compor um ambiente mais distinto na mobília de estilo. E quando falo destas pessoas que exibem inúmeros outfits, ou marcas, muitas e abundantes, só me lembro disso: um contraplacado com lombadas coladas, muito alinhadinhas, num bordô respeitável, pontuado a letrinha dourada a anunciar um conteúdo que não existe.
(disclaimer: não sou abastada nem pobrezinha, tenho uma vida desafogada para o tipo de gastos que faço ou obrigações assumidas, o que tenho vem do trabalho, as marcas das minhas cenas não são dignas de nota - acho eu - e não, não tenho inveja de quem tem cenas de marca, porque preferia usar o dinheiro noutras coisas; ainda não fui a Machu Pichu, por exemplo, e gostava de frisar o ainda.)