Na Visão desta semana, uma pequena reportagem sobre uma nova tendência muito trêndi, passe o pleonasmo, que começou nos EUA e, como toda a boa praga, já chegou a Portugal: a do pessoal anti-vacinas. Pois diz que há quem ache que as vacinas fazem muito mal, e optam por não vacinar os seus filhos.
Até sinto alguma empatia por este movimento, no que se refere à parte da pica: ando há c'anos à espera que algum cientista caridoso invente a vacina sem pica, mas ninguém tem piedade desta aqui. Agora no que respeita à coisa de não vacinar as crianças, caraças, só me apetece distribuir pontapés e bofetões. Faço isso de borla, se alguém considerar contratar-me. E porquê? Veja-se a lógica da batata desta gente.
Dizem os progenitores afectos a esta tendência que as vacinas podem causar sequelas, como o autismo. Mentira: parece que houve um tontinho que fez um estudo, mas este era uma fraude, e bem paga por gente interessada em sacar indemnizações. Pronto, uma alegação sem qualquer sustentação científica, o que parece não deter estes pais, que argumentam que ah, a ciência não explica tudo, e confia-se demasiado na ciência. Ah, pois. De um lado temos a ciência e o método científico, gente que anda anos a estudar e testar aquelas coisas; do outro, pessoal que diz que acha que não é verdade o que a ciência diz. Acha que, porque sim, sem argumento, sem qualquer suporte. Mentira: defendem que as doenças são uma coisa natural, e que o corpo é que deve desenvolver defesas. Ora batatas, a morte também é uma coisa natural, mas quanto mais tarde melhor, não? Lá pelo meio uma defende que o sarampo é natural, limpa o corpo, é uma crise de crescimento. Decerto nunca averiguou a origem da expressão "limpar o sarampo". Pois.
A sorte desta gente, como referem médicos mencionados no corpo do artigo, é que vive à sombra da imunidade de grupo, isto é, como 95% da população portuguesa está imunizada (e por cá há tratamento de águas e saneamento, já agora), muito dificilmente seus pequenos e não vacinados rebentos serão contaminados com tifo, polio, ou difteria. Kudos. Agora, já que é tão natural, que tal enfiarem-se num avião para África ou Ásia, hum? E beber auguinha da torneira, comer vegetais lavados em auguinha corrente, e tudo e tudo? Força aí, a adquirir defesas com o método natural!
Mas no que respeita ao sarampo, a coisa é diferente: é que a vacina é eficaz para 99% dos vacinados, ou seja, existe 1% que apanhará a doença, mesmo após vacina. Ora eu fui um desses 1%. Vacinada contra tudo e um par de botas, que mamãe não vai em cenas, ainda assim apanhei sarampo. Foi uma coisa leve, vá lá, se calhar devido à imunização. Mas quem não está vacinado é um risco, e para todos. São potenciais focos de contaminação. E por isso é quando eu era petiza ninguém conseguia inscrever os putos na escola sem terem o boletim de vacinas devidamente actualizado.
Ser calhar até há quem defenda que este pessoal new age tem todo o direito às suas crenças, a liberdade e tal, e eu até nem me opunha se não fossem dois pequenos pormenores: 1- eles não vivem numa bolha; 2- estamos a falar de decidir por crianças. À uma, imaginem que na escola onde estão os vossos pequenos, há também meninos não vacinados. Dormem descansados? Hum? É que isto não é bem a mesma coisa que aparecer um com piolhos, trata-se de doenças mortais, caneco. Às duas, com que direito os pais tratam os filhos como uma coisa, decidindo por as suas crenças à frente do seu eventual bem-estar, contra evidências científicas mais que comprovadas. Ai, eu não acredito. Olha, eu também não acredito que alguma vez me saia o euromilhões, mas continuo a jogar.
De resto, acho comovente que meia dúzia de totós ande por aí com a crença do natural e tal. Espero que também não tenham electricidade em casa, credo, que aquilo tem raios e campos e assim que fazem mal e coiso. Anda o Bill Gates a gastar a sua fortuna a tentar erradicar doenças mediante vacinação, e às tantas melhor fazia a distribuir frasquinhos de água, digo, "medicamentos" homeopáticos. Eu cá oferecia a este pessoal era um bilhete de ida para o terceiro mundo, onde se podiam entreter a pregar a mães aflitas que aquilo que lhes mata a prole é uma coisa natural, quiçá selecção natural, e depois ver como se sentiriam no dia em que os seus filhos também fossem atingidos. Tanta evolução, tanta ciência, e ainda não se inventou um detergente eficaz para disparates deste coturno.